A tese: o comparador mudou, o aparelho quase não
Em 14 de abril de 2026, o JAMA Network Open publicou um ensaio randomizado com 995 universitários israelenses em sofrimento psicológico, alocados um para um para um entre plataforma de IA, terapia de grupo presencial e lista de espera. A plataforma superou a terapia de grupo em ansiedade, com diferença média de -2,17 pontos no GAD-7, escala de 0 a 21 (IC 95% -2,67 a -1,67). Oito dias depois, o JMIR Mental Health publicou um ensaio de viabilidade de três braços com adultos recrutados online, no qual o ChatGPT sem protocolo clínico produziu d de -0,44 em sintomas depressivos e o aplicativo de terapia estruturada produziu -0,47, os dois contra o mesmo braço de avaliação apenas, em 44 e 60 participantes contra 43.
Os dois estudos foram lidos na imprensa como a mesma notícia. Eles medem coisas diferentes. O primeiro comparou a IA com uma intervenção humana de baixa intensidade e ganhou em ansiedade; o segundo comparou dois usos de IA entre si e não achou diferença. O que separa os números é a régua contra a qual cada um foi medido, e o campo mudou essa régua duas vezes em dezoito meses.
A consequência prática aparece quando as duas melhores sínteses do ano se encontram. A meta-análise publicada no Journal of Medical Internet Research em 8 de maio de 2026, com 29 ensaios randomizados e 5.686 participantes, registrou g de -0,55 em depressão (IC 95% -0,70 a -0,40). A meta-análise publicada em npj Digital Medicine em 25 de março de 2026, com 39 ensaios e 7.401 participantes na análise de depressão, registrou g de 0,31 (IC 95% 0,17 a 0,46). Mesmo objeto, seis semanas de distância, diferença de 0,24 em g. Nenhuma das duas está errada. As duas usaram critérios de inclusão distintos, e é isso que o leitor precisa saber antes de repetir qualquer um dos dois números.
Dezenove estudos, por eixo
Cada linha traz o identificador que permite abrir a fonte, o desenho com o denominador, o achado numérico, a limitação que costuma sumir na cobertura e a pauta editorial que o estudo libera. Vários artigos do levantamento de origem estavam sem autoria resolvida; nesses casos a citação usa veículo, ano e identificador do artigo, e nenhum nome foi atribuído sem confirmação na fonte.
| Veículo e identificador | Data | Desenho e N | Achado numérico principal | A limitação que a imprensa ignora | A pauta que ele gera |
|---|---|---|---|---|---|
| IA em saúde mental | |||||
| JAMA Network Open 2026;9(4):e266713. DOI 10.1001/jamanetworkopen.2026.6713. PMID 41979879. Shoshani e colaboradores, Reichman University, Israel. | 14/04/2026 | Ensaio clínico randomizado, 995 universitários israelenses com sofrimento psicológico, alocação 1:1:1 entre plataforma de IA (336), terapia de grupo presencial (331) e lista de espera (328). Doze semanas de intervenção e reavaliação três meses depois. | Ansiedade no GAD-7, escala de 0 a 21: IA contra terapia de grupo, diferença média de -2,17 (IC 95% -2,67 a -1,67); IA contra lista de espera, -2,15 (IC 95% -2,65 a -1,65). Bem-estar no WHO-5, escala de 0 a 100: +9,16 contra lista de espera (IC 95% 6,14 a 12,18). | Depressão contra a terapia de grupo ficou em -0,68 (IC 95% -1,32 a -0,04) e perdeu significância após correção para comparações múltiplas. Em sintomas de TEPT não houve diferença entre os três braços. Desfechos autorrelatados, sem avaliador clínico. Aos três meses o atrito chegou a 35,4%, e 61,0% (205 de 336) seguiam ativos na semana 12. | O ganho da IA se concentra em sofrimento difuso de estudante. Em trauma, o número desaparece. |
| JMIR Mental Health 2026;13:e82642. DOI 10.2196/82642. Kuta e colaboradores. | 22/04/2026 | Ensaio randomizado de viabilidade com três braços em adultos recrutados online: aplicativo de terapia estruturada em terapia focada em soluções (44), ChatGPT genérico (60) e avaliação apenas (43). Três semanas, nove sessões previstas. | Sintomas depressivos no PHQ-9 contra o braço de avaliação apenas: aplicativo estruturado com d de -0,47 (p = 0,006) e ChatGPT com d de -0,44 (p = 0,02). | Ansiedade e bem-estar não se moveram em nenhum dos dois braços: GAD-7 com d de -0,37 (p = 0,11) e -0,27 (p = 0,22); WHO-5 com d de 0,12 (p = 0,53) e 0,20 (p = 0,29). A conclusão do protocolo caiu para 39% no braço estruturado (17 de 44) e 62% no ChatGPT (38 de 60). Três semanas, amostra recrutada online e digitalmente letrada. | O comparador genérico empatou com o protocolo estruturado no único desfecho que se moveu. |
| Journal of Medical Internet Research 2026;28:e82677. DOI 10.2196/82677. PMID 42101333. Gong e colaboradores. | 08/05/2026 | Revisão sistemática e meta-análise de 29 ensaios randomizados de chatbots orientados por terapia cognitivo-comportamental em adultos com sintomas depressivos ou ansiosos, somando 5.686 participantes. Busca em nove bases até fevereiro de 2026. | Depressão pós-intervenção com g de Hedges de -0,55 (IC 95% -0,70 a -0,40). Ansiedade com g de -0,26 (IC 95% -0,37 a -0,14). No seguimento, depressão cai para -0,32 (IC 95% -0,55 a -0,09) e ansiedade para -0,19 (IC 95% -0,43 a 0,04), sem significância. | A certeza da evidência foi classificada de muito baixa a baixa. A heterogeneidade em depressão chegou a I² de 77,8%, e o intervalo de predição de 95% vai de -1,23 a 0,13, ou seja, um estudo novo pode devolver efeito nulo. Em ansiedade o intervalo de predição vai de -0,67 a 0,15. | O número que responde se aquilo vai funcionar no seu serviço é o intervalo de predição, e ele quase nunca aparece na cobertura. |
| npj Digital Medicine 2026. DOI 10.1038/s41746-026-02566-w. Sohn, Ha, Park, Kim, Lee, Oh, Lee e Kim. | 25/03/2026 | Revisão sistemática e meta-análise independente de 39 ensaios randomizados de chatbots em sintomas depressivos e ansiosos, com 7.401 participantes na análise de depressão e 7.621 na de ansiedade. | Depressão com g de 0,31 (IC 95% 0,17 a 0,46) e ansiedade com g de 0,28 (IC 95% 0,05 a 0,51). O efeito foi maior em população clínica e subclínica do que em população não clínica (p = 0,001). | 35 dos 39 estudos foram classificados como de alto risco de viés, houve viés de publicação detectado em depressão, a heterogeneidade ficou em I² de 85,34% em depressão e 94,32% em ansiedade, e apenas 16 dos 39 estudos registraram eventos adversos de forma sistemática. | Duas meta-análises do mesmo objeto, publicadas com seis semanas de diferença, discordam em 0,24 de g em depressão. A discordância mora nos critérios de inclusão. |
| Communications Medicine. DOI 10.1038/s43856-025-01321-8. Registro NCT06459128. | 15/01/2026 | Ensaio randomizado pré-registrado, dois braços, 540 adultos residentes nos Estados Unidos com GAD-7 igual ou acima de 7 ou PHQ-9 igual ou acima de 9. Aplicativo de terapia cognitivo-comportamental com IA generativa contra apostilas digitais estáticas em PDF. | O braço com IA generativa foi usado 2,4 vezes mais em frequência e por 3,8 vezes mais tempo. A eficácia sobre sintomas ficou semelhante entre os dois braços. | O desfecho que se moveu foi engajamento, e engajamento não é desfecho clínico. Amostra autosselecionada de pessoas dispostas a usar terapia cognitivo-comportamental autoaplicada. Sem seguimento longo. | Mais tempo de tela terapêutica sem ganho clínico adicional é o resultado que separa métrica de produto de métrica de saúde. |
| Journal of Affective Disorders 2026. PMID 41633449. Ensaio do aplicativo PATH. | 2026 | Ensaio randomizado exploratório com 316 participantes britânicos de 19 a 70 anos, comparando aplicativo com IA contra o site oficial de autoajuda do NHS. GAD-7 e PHQ-9 medidos no início e em 2, 8 e 12 semanas. | 235 dos 316 randomizados completaram a avaliação pós-intervenção, com atrito de 33,0% no braço do aplicativo. | Ensaio declarado como exploratório, não desenhado para decisão regulatória. O comparador é um site de autoajuda, portanto o estudo não responde à pergunta sobre IA contra psicoterapia. Quem permanece usando o aplicativo é quem se beneficia, o que infla o resultado do seguimento. | Um terço de abandono no braço da tecnologia é o dado operacional que decide se aquilo cabe num serviço público. |
| Psicoterapia humana | |||||
| Meta-análise multinível de correlação sobre aliança em intervenções pela internet. PMID 42080859. | 04/2026 | Revisão sistemática com 82 tamanhos de efeito aninhados em 40 amostras independentes, somando 2.864 participantes de intervenções psicológicas pela internet. | Associação global entre aliança e desfecho de r igual a 0,21. Por subescala, tarefa com r de 0,25 e meta com r de 0,19 predizem melhor o desfecho do que vínculo, com r de 0,12. | Correlação entre aliança e desfecho não estabelece direção causal: paciente que melhora tende a relatar aliança melhor. Nenhum dos moderadores testados (diagnóstico, quem avalia a aliança, contato presencial, abordagem, ano e país) influenciou sistematicamente o efeito. | No ambiente digital, o que prediz desfecho é acordo sobre tarefa e meta. O vínculo afetivo pesa menos do que a conversa pública sugere. |
| BMJ Open 2025. PMID 40669917. PMC12273124. Protocolo do MAFT-D, treinamento modificado focado em aliança com a técnica do duplo. | 16/07/2025 | Protocolo de ensaio randomizado multicêntrico, cego para paciente e avaliador, com 120 terapeutas em formação e 240 pacientes com transtorno depressivo, em 17 centros de formação em terapia cognitivo-comportamental ou psicodinâmica. | Nenhum. As duas hipóteses primárias, redução maior de sintomas depressivos e taxa menor de abandono do início até 20 semanas, ainda serão testadas. | É protocolo. Todo número associado a este estudo em texto de divulgação é hipótese de cálculo amostral, e não resultado medido. Confundir os dois transforma expectativa em achado. | A pauta honesta aqui é sobre o desenho, não sobre o efeito: por que o campo levou tanto tempo para randomizar treinamento de reparo de ruptura. |
| Journal of Clinical Psychology: In Session. DOI 10.1002/jclp.70043. Nissen-Lie. | 30/08/2025 | Comentário sobre prática deliberada aplicada à supervisão em psicoterapia. Sem amostra e sem desfecho medido. | A peça argumenta que a supervisão tradicional deixa passar a oportunidade de praticar habilidades clínicas específicas e de converter reflexão em ação. | Comentário editorial em número temático não sustenta afirmação de eficácia. Citá-lo como se fosse evidência de efeito é o erro de proveniência mais comum em conteúdo sobre formação clínica. | O gênero do texto que você cita muda o peso da sua frase. Comentário sustenta pergunta, não conclusão. |
| Trabalho e riscos psicossociais | |||||
| Ministério da Previdência Social, dados de 2025 divulgados em 26/01/2026 e apurados pelo G1. | 26/01/2026 | Registro administrativo de benefícios por incapacidade temporária concedidos pelo INSS ao longo de 2025, com recorte por código diagnóstico e por sexo. | 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15% sobre 2024 e segundo recorde consecutivo. Transtornos de ansiedade somaram 166.489 e depressão 126.608. Mulheres respondem por mais de 60% do total. | O registro só alcança afastamento acima de 15 dias que chega ao INSS. Fica de fora licença curta, trabalhador informal, servidor com regime próprio e presenteísmo. A série depende da codificação diagnóstica feita pela perícia, o que abre espaço para viés de classificação. Concessão de benefício não é diagnóstico de nexo com o trabalho. | A curva pode estar medindo reconhecimento institucional crescente tanto quanto adoecimento crescente. As duas leituras cabem no mesmo número. |
| Ministério da Previdência Social, dados de 2025 divulgados em 26/01/2026 e apurados pelo G1. | 26/01/2026 | Mesmo registro administrativo, agora no total de benefícios por incapacidade temporária de todas as causas em 2025. | Mais de 4,1 milhões de benefícios por incapacidade temporária em 2025, o maior número em cinco anos e alta de 17,1% sobre 2024. Transtornos mentais aparecem como segunda causa, atrás de doenças da coluna. | O custo de R$ 3,5 bilhões que circulou junto com a notícia é estimativa da reportagem, calculada por afastamento médio de três meses a cerca de R$ 2.140 por benefício. Não é número oficial da Previdência e não deve ser citado como se fosse. | Quando o total sobe 17,1% e a saúde mental sobe 15%, a participação relativa cai. Essa conta raramente aparece na cobertura. |
| Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho do SmartLab, iniciativa do Ministério Público do Trabalho com a Organização Internacional do Trabalho, sobre registros do INSS. Divulgação da ONU Brasil em 17/04/2025. | 17/04/2025 | Série histórica de benefícios por incapacidade associados a transtornos mentais, com comparação entre 2022 e 2024. | Passagem de 201.000 benefícios em 2022 para 472.000 em 2024, alta de 134% em dois anos. Entre afastamentos de natureza acidentária, reações ao estresse responderam por 28,6%, ansiedade por 27,4% e episódios depressivos por 25,1%. | A janela escolhida começa em 2022, ano ainda deprimido pela pandemia, o que amplifica a variação percentual. A série não separa transtorno com nexo ocupacional reconhecido de transtorno de causa múltipla, e não ajusta por mudança na composição da força de trabalho. | Percentual de dois anos com base pandêmica pede a série longa ao lado. Sem ela, a manchete cresce sozinha. |
| Norma Regulamentadora 1. Portaria MTE nº 1.419, de 27/08/2024, e Portaria MTE nº 765, de 15/05/2025. | 26/05/2026 | Alteração normativa que inclui expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, aplicável ao universo de empregadores regidos pela CLT. | A fase de fiscalização com possibilidade de sanção começou em 26 de maio de 2026, após a prorrogação dada pela Portaria nº 765. O Ministério confirmou o critério de dupla visita nos 90 dias seguintes, com atuação de caráter orientador. | A norma exige gerenciamento e não fixa metodologia, instrumento nem lista de verificação nacional para risco psicossocial. Isso abre espaço para consultoria superficial e para inventário de risco montado como defesa jurídica. | A ausência de método padronizado é a vaga real da psicologia organizacional nesse ciclo, e também o risco de captura. |
| Supremo Tribunal Federal, ADPF 1316, relator ministro André Mendonça, proposta pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino. | 18/08/2026 | Liminar de 25 de junho de 2026 suspendendo por 90 dias multas e demais sanções ligadas à obrigatoriedade de identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais, referendada por unanimidade em sessão virtual do Plenário encerrada em 18 de agosto de 2026. | As diretrizes da NR-1 continuam válidas. As punições por descumprimento estão suspensas enquanto durar a negociação, com mesa de conciliação aberta entre governo, empregadores e trabalhadores. | Muita comunicação de mercado ainda vende adequação à NR-1 com o argumento da multa. A multa está suspensa, e a obrigação permanece. Os dois fatos convivem e precisam aparecer juntos. | O argumento de venda por multa perdeu a base em agosto de 2026. O argumento por dever legal e por dado de afastamento continua de pé. |
| Neuropsicologia e avaliação | |||||
| Autism Research 2025;18:1651-1663. DOI 10.1002/aur.70073. PMID 40546237. Diemer e colaboradores. | 2025 | Estudo comparativo observacional com 1.424 mulheres autistas adultas, contrastando quem recebeu diagnóstico na infância com quem recebeu na vida adulta. | No grupo com diagnóstico adulto: ansiedade em 69,87%, depressão em 61,79%, transtorno alimentar em 17,28% e uso de substâncias em 8,85%, todos acima do grupo com diagnóstico infantil. A idade média de diagnóstico foi 9,6 anos no primeiro grupo e 31,8 anos no segundo. Na amostra completa, 34% relataram ideação suicida e 21% automutilação. | Viés de seleção forte, sem ajuste por uso prévio de serviços de saúde. Quem chega ao diagnóstico aos 31,8 anos passou por duas décadas de encaminhamentos, e parte da comorbidade medida pode ser consequência desse percurso, e não característica do quadro. | Comorbidade alta em diagnóstico tardio pode estar medindo o tempo de exposição a serviço inadequado. |
| Diretriz de prática clínica da Alzheimer’s Association sobre biomarcadores em sangue, publicada em Alzheimer’s & Dementia. DOI 10.1002/alz.70535. Apresentada na AAIC de julho de 2025. | 07/2025 | Primeira diretriz de prática clínica da entidade sobre uso de biomarcadores plasmáticos na investigação diagnóstica de suspeita de doença de Alzheimer, restrita a serviço especializado. | Recomendação por desempenho, sem marca: uso como triagem exige sensibilidade igual ou acima de 90% e especificidade igual ou acima de 75% para descartar patologia; uso confirmatório, no lugar de PET amiloide ou de biomarcador liquórico, exige 90% nos dois parâmetros. | A diretriz não cobre rastreio populacional, não cobre uso fora de serviço especializado e não cobre pessoa sem queixa cognitiva ou com queixa apenas subjetiva. Traz declaração de boa prática segundo a qual o exame vem depois da avaliação clínica completa, jamais no lugar dela. | O exame de sangue entra depois da avaliação neuropsicológica, e apenas em serviço especializado. A cobertura de imprensa costuma inverter a ordem. |
| Estudo de composto cognitivo otimizado breve (BOCC) contra o MoCA. PMC12742428. | 2025 | Desenvolvimento e validação de composto cognitivo de quatro itens, com aplicação em 4 a 5 minutos, comparado ao MoCA, que leva de 10 a 14 minutos, para detecção de comprometimento cognitivo leve e demência inicial. | Para predizer conversão para demência em seis anos, o composto atingiu área sob a curva de 0,95, contra 0,88 do diagnóstico clínico de especialistas. Na detecção de demência leve, 0,99 contra 0,95 do MoCA. | A coorte de derivação e a de validação não ficaram identificadas na conferência feita para esta página, portanto a área sob a curva não viaja para fora do contexto original. Área sob a curva alta em amostra com prevalência alta de comprometimento não se traduz em valor preditivo positivo alto em população geral. | Sensibilidade e especificidade não dependem da prevalência. Valor preditivo positivo depende, e é ele que decide o que você diz ao paciente. |
| Desenvolvimento e envelhecimento | |||||
| JAMA 2025;334(21):1948-1950. DOI 10.1001/jama.2025.16613. PMID 41082212. Nagata e colaboradores. | 13/10/2025 | Análise longitudinal de 6.554 adolescentes de 9 a 13 anos do estudo ABCD, com trajetórias de uso de redes sociais e testes cognitivos dois anos depois. | Três trajetórias: sem uso ou uso muito baixo em 57,6% da amostra (+0,3 hora por dia aos 13 anos), uso baixo crescente em 36,6% (+1,3 hora) e uso alto crescente em 5,8% (+3,0 horas). Comparando alto crescente com baixo crescente, em escalas de média 100: memória de sequência de figuras -2,48 pontos (103,0 contra 105,4), vocabulário por figuras -1,84 (100,3 contra 102,1), leitura oral -0,29 (100,5 contra 100,8) e composto total -1,0 (101,8 contra 102,8). | Os próprios autores listam uso autorrelatado, confundimento residual e desenho observacional que impede afirmar que a trajetória causa o desempenho pior. As diferenças ficam entre 0,3 e 2,5 pontos em escalas cuja média é 100 e cujo desvio padrão típico é 15. | A magnitude é a notícia. Uma diferença de 1 ponto num composto de média 100 não sustenta manchete de colapso cognitivo. |
| Pediatrics Open Science 2026;2(1):1. DOI 10.1542/pedsos.2025-000922. Nivins, Mooney, Nigg e Klingberg. | 03/2026 | Estudo longitudinal com 8.324 crianças do estudo ABCD, 53% meninos, idade média de 9,9 anos no início, com quatro seguimentos anuais e incorporação de escore genético. | O uso médio diário de redes sociais sobe de cerca de 30 minutos aos 9 anos para cerca de 2,5 horas aos 13. A associação com sintomas de desatenção aparece de forma consistente ao longo dos quatro anos, e os autores a descrevem como pequena no nível individual, com possível relevância no nível populacional. | Associação pequena, medida por autorrelato, sem randomização. A direção causal não está resolvida: criança com mais desatenção também pode migrar mais para redes sociais. O escore genético entra como covariável, e não como prova de mecanismo. | Efeito pequeno no indivíduo com efeito possível na população é uma distinção estatística que quase nunca sobrevive à manchete. |
Tamanho de efeito com o comparador ao lado
O número sozinho não informa. A barra traz o valor absoluto do tamanho de efeito, e a linha abaixo dela traz contra o que aquele efeito foi medido e em quantas pessoas.
Dezesseis meses em ordem
A sequência importa porque três dos doze marcos mudam a leitura dos anteriores. O último deles, a decisão do Supremo em agosto de 2026, altera o argumento comercial que boa parte do mercado de saúde mental corporativa ainda usa.
O que este radar não sustenta
Toda a lista acima já foi usada em cobertura de imprensa e em conteúdo de rede social para sustentar afirmações que os estudos não fazem. Oito delas aparecem com frequência suficiente para merecer o desmentido explícito, com o número que o desmonta ao lado.
- Que a IA supere a psicoterapia humana. O ensaio do JAMA Network Open comparou a plataforma com terapia de grupo presencial em universitários, e o ganho ficou em ansiedade. Em depressão, a diferença contra a terapia de grupo foi de -0,68 (IC 95% -1,32 a -0,04) e perdeu significância após correção para comparações múltiplas. Em sintomas de TEPT não houve diferença entre os três braços.
- Que o efeito de chatbot se transfira para o seu serviço. A meta-análise de 29 ensaios publicada no JMIR em 8 de maio de 2026 traz intervalo de predição de 95% que vai de -1,23 a 0,13 em depressão. Um estudo novo em população nova pode devolver zero. A certeza da evidência foi classificada de muito baixa a baixa, com I² de 77,8%.
- Que exista consenso sobre a magnitude. Duas meta-análises de 2026 sobre o mesmo objeto, com 29 e 39 ensaios, chegaram a 0,55 e 0,31 em depressão. Quem cita apenas uma das duas está reportando um recorte de critério de inclusão como se fosse o estado da arte.
- Que engajamento seja desfecho clínico. O ensaio da Communications Medicine, com 540 adultos e registro NCT06459128, mediu uso 2,4 vezes mais frequente e 3,8 vezes mais longo, com eficácia semelhante sobre sintomas. Tempo de uso é métrica de produto.
- Que rede social derrube a cognição do adolescente. No estudo do JAMA com 6.554 adolescentes do ABCD, a trajetória de uso alto crescente reúne 5,8% da amostra, e a diferença contra a trajetória de uso baixo crescente ficou entre 0,29 e 2,48 pontos em escalas de média 100. Os próprios autores registram desenho observacional, uso autorrelatado e confundimento residual.
- Que a mulher autista adulta seja mais vulnerável por natureza. Os 69,87% de ansiedade no grupo com diagnóstico adulto, dentro de 1.424 mulheres, vêm de uma amostra sem ajuste por uso prévio de serviços. Entre a idade média de diagnóstico infantil, 9,6 anos, e a adulta, 31,8 anos, cabem duas décadas de encaminhamento e de tratamento errado.
- Que o exame de sangue substitua a avaliação neuropsicológica. A diretriz da Alzheimer’s Association de julho de 2025 vale para serviço especializado, em pessoa que já tem comprometimento cognitivo, e traz declaração de boa prática segundo a qual o teste vem depois da avaliação clínica completa. Ela não cobre rastreio populacional nem uso fora de serviço especializado.
- Que a NR-1 esteja multando empresa por risco psicossocial. A fiscalização com sanção começou em 26 de maio de 2026, e o Plenário do STF referendou em 18 de agosto de 2026, na ADPF 1316, a liminar do ministro André Mendonça que suspendeu multas e sanções por 90 dias, com mesa de conciliação aberta. As diretrizes da norma continuam válidas. As duas coisas precisam viajar na mesma frase, porque a metade de cada uma vira propaganda enganosa.
Existe uma nona leitura, mais silenciosa e mais cara. O protocolo do MAFT-D, publicado no BMJ Open em 16 de julho de 2025 com 120 terapeutas e 240 pacientes em 17 centros, aparece em texto de divulgação como se já tivesse resultado sobre abandono. Ele é um protocolo. O desfecho será medido 20 semanas após a linha de base, e ainda não existe. Número de cálculo amostral apresentado como achado é o defeito de proveniência que contamina tudo o que o autor publicou antes.
Força de evidência contra ruído de imprensa
O quadrante que interessa ao editor é o inferior direito: estudo forte que quase ninguém cobriu. O quadrante superior esquerdo é o de risco: cobertura alta sobre base fraca.
O que fazer com isso na segunda-feira
A tese abre com dois ensaios que se contradizem por causa do comparador, e fecha aqui: o comparador é a primeira coisa que entra no seu texto, antes do número. Quatro critérios resolvem a maior parte das decisões editoriais que este radar impõe.
O texto vai citar um percentual?
Escreva origem, data, método e denominador na mesma frase. Sem os quatro, o percentual sai e a afirmação encolhe até o tamanho do que se sabe.
O estudo é protocolo, comentário ou editorial?
Use para levantar pergunta e para descrever o desenho. Nunca para sustentar conclusão de efeito. O MAFT-D e o comentário de Nissen-Lie estão nesta faixa.
Existe intervalo de predição publicado?
Cite o intervalo de predição junto com o de confiança. Em depressão, a meta-análise de 29 ensaios vai de -1,23 a 0,13, e essa faixa responde à pergunta que o leitor tem.
A comparação é contra lista de espera ou contra tratamento ativo?
Diga o comparador antes de dizer o número. A mesma intervenção muda de tamanho quando a régua muda, e a régua é a informação clínica.
Limites deste radar
Dezenove itens não descrevem a produção do período, e sim o recorte que sustenta pauta editorial neste portal, escolhido por identificador verificável e por relevância para a prática brasileira. Nenhum dos ensaios de IA em saúde mental listados foi conduzido no Brasil, e nenhum incluiu amostra brasileira declarada, o que limita a transposição para o SUS e para clínica privada nacional. Os dados de afastamento vêm de registro administrativo do INSS, que só alcança quem passou pela perícia. A conferência de identificadores foi feita em 7 de setembro de 2026; para o estudo do composto cognitivo breve, a coorte de derivação não ficou identificada, e o achado aparece com essa ressalva colada.
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Ler comparador, denominador e intervalo de predição antes de citar um número é competência de formação. Quem trabalha com avaliação, com clínica ou com risco psicossocial encontra essa leitura crítica dentro das pós-graduações em Psicologia do IPOG, que mantém MBAs correlatos nas áreas cobertas por este radar. Este portal é editorial e independente, sem vínculo com o site oficial da instituição.
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