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Protocolo · Evidência assimétrica entre fissura e recaída

Prevenção de recaída: o mindfulness reduz a fissura, e não o desfecho que o serviço promete

A meta-análise de Grant e colegas (2017), com nove ensaios randomizados e 901 participantes, encontrou efeito da prevenção de recaída baseada em atenção plena sobre fissura e consequências negativas, e nenhuma diferença significativa sobre recaída e frequência de uso.

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Resposta rápida

  • O que é: conjunto de procedimentos para identificar situações de alto risco, preparar respostas de enfrentamento e conter o episódio isolado antes que ele vire retorno ao padrão anterior.
  • Origem: modelo de Marlatt (1998 e 2002), citado pelo Guia do Ministério da Saúde (2026) como fundamento das práticas de redução de danos e promoção de autonomia na RAPS.
  • O que a atenção plena entrega: efeito pequeno sobre fissura e consequências negativas, sem diferença significativa em recaída e frequência de uso (Grant et al., 2017, nove ensaios, 901 participantes).
  • Dose de referência: 8 a 10 sessões em grupo ou 6 a 8 individuais, com componente de prevenção de recaída (NICE NG248, recomendação 1.5.15).
  • Por que importa: a TCC no transtorno do jogo tem efeito grande no fim do tratamento e efeito não significativo no seguimento (Pfund et al., 2023).

A tese: o alvo do componente de atenção plena e o alvo do serviço são diferentes

Grant, Colaiaco, Motala, Shanman, Booth, Sorbero e Hempel publicaram em 2017, no Journal of Addiction Medicine, uma revisão sistemática com meta-análise da prevenção de recaída baseada em atenção plena para transtornos por uso de substâncias. A base foi de nove ensaios randomizados e 901 participantes. Dois desfechos ficaram a favor do MBRP, ambos com efeito pequeno: sintomas de abstinência e fissura, e consequências negativas do uso. Seis desfechos ficaram sem diferença significativa: recaída, frequência de uso, abandono do tratamento, sintomas depressivos, sintomas de ansiedade e a própria medida de atenção plena. A qualidade da evidência foi declarada baixa a muito baixa.

Essa distribuição de resultados é informação clínica útil, e não veredito sobre o método. Fissura é um alvo legítimo, e reduzir a intensidade do desejo melhora a experiência de quem está em tratamento. O problema aparece quando o serviço declara um alvo e compra um componente que trabalha outro. Se a métrica contratada com o gestor, com o convênio ou com o próprio paciente é redução de recaída, o programa precisa de mais que o módulo de atenção plena, porque foi exatamente nesse desfecho que a diferença não apareceu.

Vale registrar a base temporal com precisão, porque ela muda a leitura de recência: a meta-análise é de 2017. Um trabalho posterior, de Tabugan e colegas (2025), na revista Medicina, com 12 estudos e 2.162 participantes, encontrou redução significativa de dias de uso de substâncias no seguimento de 12 meses para o MBRP, o que mantém o componente em jogo com um recorte de desfecho distinto. O mesmo trabalho reporta efeitos médios da TCC, com d de 0,58 para depressão e 0,61 para gravidade psiquiátrica, e um achado que raramente entra em desenho de programa: a idade explicou 44,2% da variabilidade nos períodos até a recaída, com p de 0,0131.

A conclusão de desenho é direta. Componente de atenção plena entra como manejo de fissura e de consequências, com expectativa calibrada; a redução de recaída propriamente dita depende de outros elementos do programa, entre eles a densidade de sessões de TCC, o critério de reingresso e o monitoramento no seguimento. O conteúdo do próprio método está em mindfulness.

Da situação de alto risco ao lapso e à recaída Diagrama em duas rotas a partir de uma situação de alto risco. Com resposta de enfrentamento disponível, a confiança aumenta e o risco cai. Sem resposta disponível, a confiança cai e ocorre o lapso, que se torna recaída quando o episódio é lido como fracasso. A faixa inferior indica onde o componente de atenção plena atua e onde ele não mostrou efeito. Situação de alto risco Resposta disponível confiança sobe, risco cai Sem resposta pronta confiança cai, fissura sobe Lapso Recaída padrão janela do plano de manejo Atenção plena: efeito sobre fissura, sem diferença sobre recaída (Grant et al., 2017).
O ponto de intervenção com maior alavancagem fica entre o lapso e a recaída, e é ali que o componente de atenção plena, isolado, não produziu diferença. Um programa que só ensina a observar a fissura deixa essa janela sem procedimento.

Lapso e recaída: por que a distinção decide o desfecho

No modelo de Marlatt (1998), lapso é o episódio único de retorno ao comportamento e recaída é o retorno ao padrão anterior. O que separa os dois não é o tempo decorrido, e sim a leitura que a pessoa faz do episódio. Quando o lapso é interpretado como prova de que o tratamento fracassou, a expectativa de controle desaba e o episódio se estende. Quando é interpretado como informação sobre uma situação que o plano ainda não cobria, ele vira insumo de revisão.

A diretriz NICE NG248 (2025) traduz isso em conduta. A recomendação 1.6.2 orienta discutir com a pessoa que a recaída não é motivo de vergonha e que entender os gatilhos ajuda. A 1.6.3 pede apoio contínuo e possibilidade de reingresso rápido à terapia. Reingresso rápido é procedimento administrativo, com fila e agenda, e é dele que depende a conversão do lapso relatado em intervenção efetiva. Serviço sem porta de retorno transforma cada lapso em alta por abandono.

Essa mesma lógica é a que sustenta a redução de danos na rede pública brasileira. O Guia do Ministério da Saúde (2026) cita Marlatt (1998) e Marlatt (2002) como fundamento das práticas de redução de danos e promoção de autonomia na RAPS, o que significa que a linhagem de prevenção de recaída entrou na política pública brasileira pela porta do cuidado continuado, e não pela porta do protocolo fechado de sessões.

Gatilhos e situações de alto risco: o que mapear

O mapa de gatilhos é o produto inicial do trabalho, e ele precisa ser específico o bastante para virar procedimento. A tabela lista as categorias que aparecem com mais frequência no campo das dependências e o que cada uma exige do plano.

Categoria de gatilho Exemplo concreto Resposta preparada Como verificar
Estado emocional negativo Discussão familiar, humilhação no trabalho, notícia de dívida. Sequência escrita de três ações, na ordem, com telefone de contato definido. Registro de episódios entre sessões, com o que foi feito em cada um.
Estado emocional positivo Comemoração, pagamento recebido, vitória do time. Plano específico para dia de dinheiro em conta, incluindo transferência programada. Conferência do extrato nas datas de crédito.
Exposição ambiental Publicidade em transmissão esportiva, notificação de aplicativo, grupo de mensagens. Bloqueio de notificação, saída de grupo, autoexclusão de plataforma. Checagem do que continua instalado e ativo no aparelho.
Pressão social Convite de colega, aposta coletiva no escritório. Resposta ensaiada em voz alta, com frase curta e sem justificativa longa. Ensaio na sessão, e não apenas descrição verbal do que faria.
Teste de controle Voltar por curiosidade, apostar valor pequeno para provar autocontrole. Antecipar o roteiro completo do episódio, do primeiro clique ao saldo do dia seguinte. Comparar a previsão escrita com o que de fato aconteceu.

Plano de manejo: o que precisa estar escrito

Itens obrigatórios

  • Lista nominal das situações de alto risco da pessoa, com data em que cada uma foi identificada.
  • Resposta preparada para cada situação, em frase de ação, e não em intenção genérica.
  • Regra de contato: quem a pessoa procura no lapso, por qual canal, em quanto tempo.
  • Critério de reingresso combinado antes da alta, conforme a recomendação 1.6.3 da NICE NG248.
  • Métrica acompanhada pela própria pessoa: dias sem episódio, teto de gasto, saldo verificado.

Erros que anulam o plano

  • Plano escrito pelo profissional e apenas lido pela pessoa, sem revisão do vocabulário dela.
  • Meta declarada no plural genérico, do tipo evitar situações de risco, sem nome de lugar, horário e pessoa.
  • Alta sem porta de retorno definida, que converte o primeiro lapso em abandono do serviço.
  • Ausência de acordo prévio sobre o que acontece no lapso, o que empurra a pessoa a omitir o episódio.
  • Componente de atenção plena assumido como responsável pela redução de recaída, quando o efeito medido está na fissura.

O achado que reorganiza a prioridade

O efeito da TCC no transtorno do jogo encolhe no seguimento, e é isso que torna a manutenção a decisão que muda desfecho

Pfund, Ginley, Kim, Boness, Horn e Whelan publicaram em 2023, na Clinical Psychology Review, uma revisão guarda-chuva com meta-análise reunindo cinco meta-análises, 56 estudos únicos e 5.389 participantes. Para gravidade do transtorno do jogo, o efeito da TCC foi de g igual a -0,91 no pós-tratamento e de g igual a -0,14 no seguimento, sem significância estatística. Para frequência de jogo, foi de -0,52 no pós-tratamento e -0,10 no seguimento, também sem significância. Os autores registram que apenas sete estudos trouxeram dados de seguimento longo.

A leitura prática é que o campo sabe iniciar mudança e ainda não sabe sustentá-la. Isso desloca a pergunta de escolha de escola terapêutica, que é onde a maior parte da discussão de formação se concentra, para a arquitetura do que vem depois da última sessão: quem monitora, com qual instrumento, em qual janela, e com qual porta de retorno. O comparativo entre abordagens no portal está em terapia cognitivo-comportamental, e a lógica de intensidade por resposta está em stepped care.

A revisão de evidência H da NICE NG248 (2025) chega ao mesmo lugar por outro caminho. A pergunta era a efetividade de intervenções para prevenir recaída em pessoas que participaram de jogo prejudicial, e a busca encontrou dois ensaios randomizados. O comitê registrou ausência de evidência para apoio de pares e mentoria, abordagens baseadas em atenção plena, programas de autoexclusão e ferramentas de bloqueio, terapias familiares ou de casal e aconselhamento financeiro. Ainda assim recomendou considerar prevenção de recaída, com conteúdo variável conforme necessidade e preferência, e emitiu recomendação de pesquisa por classificar a base como decepcionante.

Como medir prevenção de recaída sem enganar o próprio serviço

A primeira decisão de medição é escolher o desfecho antes de escolher o componente. Fissura, frequência de episódios, gasto, gravidade de sintomas, consequências negativas e permanência no serviço são desfechos diferentes, e um programa pode melhorar em alguns e ficar parado em outros, como o conjunto de resultados de Grant e colegas (2017) demonstra dentro de um único método.

A segunda decisão é a janela. Um programa avaliado só no fim do ciclo de sessões reporta o momento em que o efeito da TCC é grande, e cala sobre o momento em que ele deixa de ser significativo. Medir em pelo menos duas janelas, uma na alta e outra alguns meses depois, é o que separa relatório de resultado de relatório de encerramento. Tabugan e colegas (2025) trabalharam com seguimento de 12 meses, e é nesse horizonte que o MBRP apareceu com redução significativa de dias de uso.

A terceira decisão é o instrumento. Para jogo, a NICE NG248 (2025), na recomendação 1.1.20, indica instrumentos validados, entre eles o PGSI e o South Oaks Gambling Screen. No SUS, o Guia do Ministério da Saúde (2026) indica o Autoteste de Jogo (Velasquez, 2021), o PGSI (Ferris e Wynne, 2001) e a Esdeje (Lemos, 2015), com a ressalva, escrita no próprio Guia, de que esses instrumentos são complementares à avaliação e não direcionadores do cuidado. O escore serve para acompanhar trajetória, e a decisão de conduta continua sendo construída com a pessoa.

A quarta decisão é registrar o que a variável de contexto explica. No trabalho de Tabugan e colegas (2025), a idade explicou 44,2% da variabilidade nos períodos até a recaída, com p de 0,0131. Um serviço que compara coortes de faixas etárias distintas sem essa consideração vai atribuir ao programa uma diferença que vem da composição do grupo atendido.

Sobre a última linha de recurso, a revisão de evidência E da NICE NG248 (2025) registra evidência de baixa qualidade de superioridade dos antagonistas opioides, naltrexona e nalmefena, sobre placebo na redução da gravidade dos sintomas de jogo, com recomendação restrita a casos em que tratamentos psicológicos falharam ou houve múltiplas recaídas. Olanzapina foi descartada pelo comitê por efeitos colaterais, com base de 63 participantes, e nenhum estudo da revisão analisou tratamentos combinados. Conduta medicamentosa é decisão médica, e entra aqui apenas como referência de magnitude do que existe disponível quando o plano psicológico não sustenta o resultado.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre lapso e recaída?

Lapso é o episódio isolado de retorno ao comportamento. Recaída é o retorno ao padrão anterior de uso ou de aposta, com a perda de controle que o caracterizava. A distinção vem do modelo de Marlatt (1998) e tem consequência operacional: o intervalo entre o lapso e a recaída é a janela em que o plano de manejo ainda funciona. Um serviço que trata todo lapso como fracasso encurta essa janela, porque a pessoa deixa de relatar o episódio. A diretriz NICE NG248 (2025), na recomendação 1.6.2, orienta discutir explicitamente com a pessoa que a recaída não é motivo de vergonha e que entender os gatilhos ajuda.

Prevenção de recaída baseada em mindfulness reduz recaída?

Não, pelo que a meta-análise de Grant e colegas mostrou em 2017 no Journal of Addiction Medicine, com nove ensaios randomizados e 901 participantes. Houve diferença significativa a favor do MBRP em sintomas de abstinência e fissura e em consequências negativas do uso, com efeito pequeno em ambos. Para recaída, frequência de uso, abandono do tratamento, sintomas depressivos, sintomas de ansiedade e a própria medida de atenção plena, não houve diferença significativa. A qualidade da evidência foi declarada baixa a muito baixa. Esse resultado é útil para desenhar programa, e não para descartar o componente.

Quantas sessões de prevenção de recaída são recomendadas?

A diretriz NICE NG248 (2025), na recomendação 1.5.15, descreve TCC para transtorno do jogo entregue por profissionais com treinamento específico, tipicamente em 8 a 10 sessões de grupo ou 6 a 8 sessões individuais, com componente de prevenção de recaída incluído. No SUS, o teleatendimento do Meu SUS Digital para jogos e apostas trabalha com consultas de cerca de 50 minutos e ciclo inicial de até 10 sessões (Ministério da Saúde, 2026). Os dois números convergem na ordem de grandeza do ciclo inicial, e nenhum deles descreve o que acontece depois dele.

Autoexclusão e bloqueio de CPF contam como prevenção de recaída?

Contam como recurso prático, e a revisão de evidência H da NICE NG248 (2025) registra ausência de evidência para programas de autoexclusão e ferramentas de bloqueio no desfecho de prevenção de recaída, assim como para apoio de pares, abordagens baseadas em atenção plena, terapias familiares ou de casal e aconselhamento financeiro. A revisão incluiu dois ensaios randomizados e o comitê classificou a base como decepcionante, emitindo recomendação de pesquisa. No Brasil, mais de 1 milhão de pessoas já pediram bloqueio do CPF na plataforma de autoexclusão, com 35% declarando perda de controle como motivo (Ministério da Saúde, 2026): a adesão da população é grande e a base de evidência do desfecho ainda é pequena.

Que formação cobre manutenção de resultado, e não apenas técnica de tratamento?

A pergunta a fazer a um programa é se existe carga sobre o período que vem depois da alta: monitoramento de desfecho ao longo do tempo, critério de reingresso rápido, plano de manejo escrito com a pessoa e supervisão de casos em seguimento. A Resolução CNE/CES nº 1/2018 fixa 360 horas mínimas e 30% do corpo docente com título stricto sensu, e a Resolução CFP nº 23/2022 lista 13 especialidades sem nenhuma dedicada a dependências, o que torna esse tema competência a construir na ementa. MBAs do IPOG em Psicologia Organizacional e do Trabalho e em Psicologia Positiva, Saúde Mental e Gestão do Bem-Estar nas Organizações tratam prevenção e manutenção pelo eixo de programas de cuidado. Para grade vigente, consultar o portal oficial.

Síntese executiva

Escolha o desfecho primeiro, e o componente depois

A prevenção de recaída baseada em atenção plena reduz fissura e consequências negativas do uso, com efeito pequeno, e não mostrou diferença significativa sobre recaída e frequência de uso na meta-análise de Grant e colegas de 2017, com nove ensaios e 901 participantes. Se o alvo contratado pelo serviço é reduzir recaída, o programa precisa de mais que esse componente. E como o efeito da TCC no transtorno do jogo cai de g igual a -0,91 no pós-tratamento para -0,14 no seguimento (Pfund et al., 2023), a decisão que move desfecho está na arquitetura de manutenção, e não na escolha da escola terapêutica. O arranjo de rede que sustenta essa manutenção no Brasil está descrito em atenção primária e matriciamento.