Hiperfoco
Estado de concentração intensa e prolongada em uma atividade ou tema, com supressão parcial de fome, sede, sono e estímulos externos. É traço comum tanto no autismo quanto no TDAH e nas suas formas combinadas. No adulto autista, hiperfoco em interesses específicos é frequentemente fonte de produtividade, mestria técnica, prazer e regulação. Pode também gerar conflito em ambientes corporativos com mudança constante de prioridades, e em relacionamentos quando o parceiro neurotípico interpreta o hiperfoco como desinteresse pessoal. O cuidado clínico envolve preservar o hiperfoco como recurso, ao mesmo tempo em que se constroem rotinas mínimas de hidratação, alimentação e pausas.
Hipersensibilidade
Resposta intensa a estímulos sensoriais que para a maior parte das pessoas neurotípicas é inócua ou moderada. Inclui sons ambientes, luzes fluorescentes, texturas de roupas, perfumes, contato físico inesperado, gosto e cheiro de alimentos. No adulto autista, hipersensibilidade não é frescura, é experiência neurossensorial documentada por evidência funcional. Pode acumular ao longo do dia até gerar meltdown, shutdown ou retraimento. Acomodações práticas incluem fones com cancelamento de ruído, iluminação regulável, escolha de tecidos, e direito de sair de ambientes sobrecarregantes sem precisar justificar. O CIPTEA respalda juridicamente acomodações desse tipo em serviços públicos e privados.
Hipossensibilidade
Resposta reduzida a estímulos sensoriais que outras pessoas percebem com intensidade média ou alta. Inclui menor percepção de dor, fome, sede, temperatura ambiente, ou de sinais internos como pressão arterial alta e fadiga muscular. Em adultos autistas, hipossensibilidade pode levar a subnotificação de quadros médicos, exigindo acompanhamento clínico atento e checagens objetivas, e não apenas perguntar como a pessoa se sente. Também coexiste com hipersensibilidade em outros canais, montando um perfil sensorial misto. Avaliação ocupacional com instrumentos como o Adult Sensory Profile auxilia a desenhar rotinas, exercícios e ambientes sensorialmente compatíveis.
Interesses específicos
Áreas de profundidade incomum em conhecimento, prática ou apreciação que adultos autistas cultivam, frequentemente desde a infância ou em ondas ao longo da vida. Não são manias nem distrações, são vetores de regulação, prazer, identidade e, em muitos casos, carreira. A literatura recente, em vez de patologizar, descreve interesses específicos como recursos a serem reconhecidos e protegidos, especialmente em adultos autistas em diagnóstico tardio. Intervenções neuroafirmativas incorporam o interesse específico como ponto de partida terapêutico, não como sintoma a reduzir. No trabalho, alinhar função à área de interesse profundo é estratégia comprovada de retenção e produtividade.
Meltdown
Resposta intensa de desregulação a sobrecarga sensorial, emocional ou cognitiva, com manifestações que podem incluir choro, gritos, agitação motora, fuga do ambiente, ou expressão verbal explosiva. Não é birra, não é manipulação, é resposta funcional a um sistema nervoso saturado. Em adultos autistas, o meltdown pode ser confundido com crise de raiva, ataque de pânico ou episódio dissociativo, gerando intervenções equivocadas. O manejo adequado inclui reduzir estímulos, dar espaço, evitar conversa imediata, e voltar ao tema apenas depois da regulação. Identificar gatilhos recorrentes é parte do trabalho clínico, ao lado de planos de prevenção e de comunicação para parceiros e equipes de trabalho.
Regulação afetiva
Capacidade de monitorar, modular e expressar estados emocionais de forma adaptativa ao contexto. Em adultos autistas, a regulação afetiva está entrelaçada à regulação sensorial, à carga de camuflagem do dia, à previsibilidade do ambiente, e à presença de acomodações reais. O modelo dimensional de Gross é referência clássica, e abordagens neuroafirmativas o atualizam ao reconhecer especificidades autistas, como necessidade de stims, de pausas sensoriais e de retorno a interesses específicos como vias legítimas de regulação. Confundir regulação afetiva com "controle emocional" produz violência clínica, especialmente em meltdowns e shutdowns, que não são falhas de caráter, são respostas funcionais a sobrecarga.
Regulação neuro-sensorial
Conjunto de processos pelos quais o sistema nervoso filtra, integra e responde a estímulos sensoriais internos e externos. Em adultos autistas, esses processos costumam funcionar de modo atípico, com hiper e hipossensibilidades coexistindo em canais distintos. Estratégias de regulação incluem ambientes previsíveis, fones de cancelamento de ruído, iluminação ajustável, pausas programadas, stims permitidos, e interesses específicos como vias regulatórias. A literatura tem abandonado o termo histórico "transtorno do processamento sensorial" como diagnóstico isolado, preferindo perfis sensoriais funcionais avaliados por terapeutas ocupacionais especializados, em diálogo com psicologia clínica e psiquiatria adulta.
Shutdown
Resposta de desligamento parcial diante de sobrecarga sensorial ou emocional, complementar ao meltdown. Em vez de explosão, há retraimento, lentificação, perda de fala temporária, dificuldade de tomar decisões simples e necessidade urgente de isolamento. É frequentemente confundido com depressão episódica, dissociação ou indiferença afetiva, gerando intervenções equivocadas em consultórios e em casa. O manejo adequado é proteger o tempo de baixa estimulação, evitar perguntas múltiplas, oferecer presença sem exigência, e retomar tarefas só após regulação. O shutdown é especialmente comum em adultos autistas com camuflagem alta, que esgotam reserva de regulação após dias intensos de trabalho social.
Sobrecarga sensorial
Estado em que o volume e a intensidade de estímulos sensoriais simultâneos excede a capacidade de filtragem e integração do sistema nervoso. Em adultos autistas, surge em ambientes com ruído contínuo, iluminação fluorescente, multidões, transições rápidas, e exigência simultânea de fala, escuta e tomada de decisão. Pode progredir para meltdown, shutdown ou retraimento abrupto. Reconhecer sinais precoces, suor, taquicardia, irritabilidade crescente, pensamento mais lento, é parte do autoconhecimento clínico. Acomodações estruturais, fones, óculos com filtro, pausas planejadas, salas de baixa estimulação no trabalho, têm efeito documentado em redução de absenteísmo e em saúde mental de adultos autistas neurodivergentes.
Stim (estereotipia)
Comportamento autoestimulatório repetitivo que regula sistema nervoso, emoção e atenção. Inclui balançar o corpo, mexer com objetos nas mãos, tamborilar os dedos, repetir frases, sussurrar palavras, ou movimentar pernas. Stims são funcionais, não sintomas a serem extinguidos, e sua supressão prolongada agrava ansiedade, autistic burnout e desregulação. Intervenções neuroafirmativas protegem o direito de stim, ainda que possam ajudar a substituir stims que machucam por equivalentes funcionais e seguros. O termo técnico "estereotipia" sobrevive em laudos e classificações, mas a comunidade autista prefere "stim", e em comunicação editorial é razoável usar as duas formas com explicação.