Resposta rápida
Os três números de prevalência de aposta que circulam no debate brasileiro convivem sem se contradizer: 10% de uso atual de plataforma (Datafolha, abril de 2026), cerca de 24 milhões de pessoas com ao menos um Pix a empresa de aposta em um mês (Banco Central, agosto de 2024) e 25,9% que já jogaram alguma vez na vida (III LENAD, campo de 2023). Cada um mede uma população, uma janela de tempo e uma definição de aposta diferentes. Publicar qualquer um deles sem dizer o que ele conta produz desinformação com fonte legítima.
Quantos brasileiros apostam, e por que a resposta muda com a pergunta
A pergunta parece simples e devolve três respostas. O Datafolha entrevistou 2.002 pessoas de 16 anos ou mais em abril de 2026 e encontrou 10% usando plataformas de apostas ou cassino online, com margem de erro de 2 pontos percentuais. O Banco Central, no Estudo Especial 119/2024, contou cerca de 24 milhões de pessoas físicas que transferiram dinheiro via Pix para empresas de aposta em agosto de 2024. O III LENAD, do INPAD, reproduzido no Guia do Ministério da Saúde de 2026, registrou 25,9% de brasileiros que jogaram ou apostaram alguma vez na vida, categoria que inclui loteria (71,3% de quem aposta) e jogo do bicho (28,9%).
O que separa os três é o denominador. Um mede comportamento presente numa amostra de entrevista; outro mede um evento financeiro num mês, dentro do universo de quem usa Pix; o terceiro mede memória de vida inteira sobre qualquer jogo. Quem coloca 25,9% ao lado de 10% e conclui que a aposta caiu está comparando prevalência ao longo da vida com uso atual. Quem coloca 24 milhões de pessoas ao lado dos 10% está comparando transação bancária com resposta de entrevista. As três medidas são utilizáveis, e cada uma só é utilizável para a pergunta que ela responde.
Dentro do III LENAD, 32,1% de quem aposta o fazem em sites de apostas online, e 4,4% dos jogadores aparecem em alto risco de envolvimento problemático. Esse 4,4% incide sobre quem joga, não sobre a população brasileira, e é o número que a leitura apressada costuma transformar em taxa nacional.
O que cada número mede, lado a lado
| Número | O que foi medido | Em qual população | Recorte temporal | Instituição | Ano |
|---|---|---|---|---|---|
| 10% | Uso atual de plataforma de apostas ou de cassino online, declarado em entrevista | 2.002 pessoas de 16 anos ou mais, em 117 municípios de oito estados, margem de erro de 2 pontos percentuais | Comportamento no momento da entrevista | Datafolha | Campo em 8 e 9 de abril de 2026 |
| cerca de 24 milhões de pessoas | Pessoas físicas que fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresa de aposta | Universo de transações Pix identificadas em 56 empresas de aposta | Um mês de transações | Banco Central do Brasil, Estudo Especial 119/2024 | Agosto de 2024 |
| 25,9% | Já jogou ou apostou alguma vez na vida, contando loteria, jogo do bicho e site de aposta | Amostra domiciliar do levantamento nacional, com resposta do próprio entrevistado | Ao longo da vida inteira | III LENAD, INPAD, reproduzido no Guia do Ministério da Saúde | Campo de 2023, publicação do Guia em 2026 |
| 4,4% | Alto risco de envolvimento problemático entre quem joga ou aposta | Subgrupo dos entrevistados que declararam jogar, e não a população geral | Ao longo da vida inteira | III LENAD, INPAD, reproduzido no Guia do Ministério da Saúde | Campo de 2023 |
| cerca de 1,2% | População adulta que vive com algum transtorno relacionado ao jogo | População adulta mundial, estimativa da Organização Mundial da Saúde | Condição em curso | OPAS e Organização Mundial da Saúde, repetida na campanha do Ministério da Saúde | Dezembro de 2025 e julho de 2026 |
A leitura correta da tabela é vertical na coluna do recorte: comparar duas linhas só faz sentido quando a janela de tempo e a população coincidem, e nenhuma coincide.
Quantas pessoas o SUS já atendeu por transtorno do jogo
O Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, contabiliza 10.553 atendimentos codificados como F63.0 (Jogo Patológico) ou Z72.6 (Mania de Jogo e Aposta) entre janeiro de 2018 e maio de 2025, com alta de 104% no período. Desses, 6.237 ocorreram na Atenção Primária e 4.316 em serviços ambulatoriais, incluídos os CAPS. Em 2024 a distribuição por sexo ficou em 57% de homens e 43% de mulheres, com concentração na faixa de 20 a 49 anos.
Esses 10.553 são registros administrativos de código diagnóstico, portanto medem o que a rede identificou e codificou. O mesmo Guia aponta subnotificação do tema nos sistemas de informação, e o TCU, no Acórdão 1173/2025, lista a subnotificação de jogo patológico entre as fragilidades encontradas. Um crescimento de 104% num contador de registro descreve, em parte, uma rede que passou a nomear o que antes não nomeava.
A codificação é ela mesma um achado. O Guia (2026, seção 7.8) fixa que a classificação vigente no SUS é a CID-10, e que a CID-11, com o código 6C50.0 para Transtorno de Jogo, está em fase de implementação pelo Ministério da Saúde. A consequência para quem está em formação: o vocabulário diagnóstico atualizado convive com um formulário que ainda pede F63.0.
Sobre o que acompanha o quadro, Galeazzi, Marchi e Castagnini (2025, European Psychiatry, DOI 10.1192/j.eurpsy.2025.10122) reuniram 12 estudos populacionais de 1993 a 2024 e estimaram 82,2% de qualquer transtorno mental em pessoas com transtorno do jogo, com 34,2% de transtornos por uso de substâncias, 30,9% de transtornos do humor e 29,9% de transtornos de ansiedade. O Guia do Ministério da Saúde chega a uma faixa próxima ao citar até 75% de comorbidade psiquiátrica. A leitura prática é direta: avaliação que pergunta só sobre aposta perde a maior parte do caso.
Qual produto concentra o risco
A Comissão do Lancet Public Health sobre jogo (2024), copresidida por Heather Wardle, estima 448,7 milhões de adultos em algum nível de risco relacionado a jogo no mundo e 80 milhões com transtorno do jogo ou jogo problemático. O recorte por produto é o que reorganiza a conversa: 26,4% dos adolescentes que usam cassino ou slot online e 16,3% dos que usam apostas esportivas online podem desenvolver transtorno do jogo, contra 15,8% e 8,9% entre adultos nos mesmos produtos.
No Brasil, o estudo O Panorama das Bets, da CNC (janeiro de 2025), registra que pelo menos 80% dos pagamentos nessas plataformas envolvem cassino online. A propaganda vende futebol e a maior parte do dinheiro circula em jogo de rodada rápida. A comparação detalhada entre os dois produtos está no comparativo cassino online e aposta esportiva.
Tran e colegas (2024, The Lancet Public Health, DOI 10.1016/S2468-2667(24)00126-9), citados no Guia do Ministério da Saúde, situam o pano de fundo global: 46,2% dos adultos e 17,9% dos adolescentes jogaram ou apostaram no último ano, 8,7% dos adultos que apostam relatam alguma consequência negativa e 1,4% relatam múltiplas consequências, com a vida significativamente afetada. Na América Latina, a prevalência geral de aposta entre adultos foi estimada em 31,7%.
Mais de um milhão de pessoas pediram autoexclusão. O que se sabe sobre ela
O Ministério da Saúde informou, em agosto de 2026, que mais de 1 milhão de pessoas pediram bloqueio do CPF na plataforma de autoexclusão, disponível desde 10 de dezembro de 2025. No período da Copa, entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, foram 387.645 pedidos, ou 38% do total. Entre os motivos declarados, 35% apontaram perda de controle, 15,26% interrupção voluntária, 11,82% dificuldades financeiras e 1,32% recomendação de profissional de saúde.
É o comportamento de busca de ajuda mais numeroso já registrado no país nessa pauta, e a evidência clínica disponível sobre ele é escassa. A revisão de evidência H do NICE NG248 (2025), sobre prevenção de recaída em jogo, encontrou dois ensaios randomizados no total e registrou ausência de evidência para programas de autoexclusão e ferramentas de bloqueio, além de apoio de pares, abordagens de mindfulness, terapias familiares e aconselhamento financeiro. O comitê classificou essa base como decepcionante e emitiu recomendação de pesquisa.
Para a clínica, a consequência é de manejo: o pedido de autoexclusão marca o momento em que a pessoa reconheceu perda de controle e aceita ajuda, e esse é o ponto de entrada para o cuidado estruturado, descrito em stepped care e no matriciamento na Atenção Primária. O bloqueio sozinho não tem ensaio que o sustente como tratamento.
Por que a pessoa aposta, segundo ela mesma
O Datafolha de abril de 2026 encontrou 46% dos apostadores enxergando a aposta como renda extra ou meio de pagar contas. Na mesma pesquisa, 2% apostam sempre ou frequentemente, 4% às vezes e 4% raramente; a incidência é de 14% entre homens e 7% entre mulheres, com maior frequência em jovens adultos de ensino médio completo e renda de até dois salários mínimos. Na CPI das Bets, em audiência de 1º de abril de 2025, foi citado dado do Instituto Locomotiva segundo o qual 53% dos apostadores online declaram apostar para ganhar dinheiro.
O Banco Central completa o retrato pelo lado do dinheiro: em agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram cerca de R$ 3 bilhões a empresas de aposta, com mediana de R$ 100 por pessoa, e 70% deles eram chefes de família. Cerca de 17% dos cadastrados no programa apostaram naquele mês. O gasto mensal médio ficou perto de R$ 100 entre os mais jovens e acima de R$ 3.000 entre os mais velhos. Esses valores são estimativas preliminares do próprio BCB, construídas sobre transferências Pix a 56 empresas identificadas por citação em internet e filtros, e deixam de fora cartão de crédito e TED.
A motivação declarada muda o alvo da intervenção. Uma abordagem que trata a aposta como lazer que saiu de controle conversa com uma minoria dos casos. Para quem declara renda extra, a aposta ocupa o lugar de estratégia financeira, e o plano terapêutico precisa disputar esse lugar com algo concreto, o que aproxima o cuidado da rede intersetorial descrita na Psicologia em Saúde.
A rede consegue atender quem chegar
A capacidade de teleatendimento do Meu SUS Digital para questões de jogos e apostas saiu de 600 atendimentos mensais em março de 2026 para até 100 mil por mês em agosto de 2026, com consultas de cerca de 50 minutos e ciclo inicial recomendado de até dez sessões, segundo o Ministério da Saúde e o Ministério da Fazenda. O país contava com 3.120 CAPS na mesma data. Antes disso, a previsão anunciada com o Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas, em dezembro de 2025, era de 450 atendimentos online mensais a partir de fevereiro de 2026.
Do outro lado dessa curva está o Acórdão 1173/2025 do TCU: entre 2.000 profissionais de saúde do SUS ouvidos na auditoria, 55,2% declararam não se sentir preparados para atender pessoas com dependência de apostas. A oferta cresceu por um fator próximo de 167 em cinco meses, e a percepção de preparo medida na auditoria não acompanhou. Esse descompasso é a definição operacional da demanda por formação clínica nesse campo, tema tratado em Psicologia Clínica e no panorama de regulação profissional.
O eixo de cuidado declarado pelo Guia do Ministério da Saúde não é protocolo de consultório. É redução de danos, matriciamento, Projeto Terapêutico Singular e cuidado territorial na Rede de Atenção Psicossocial, com a redução de danos deslocando o foco do controle para o acompanhamento contínuo. Nem Entrevista Motivacional nem Terapia Cognitivo-Comportamental aparecem nomeadas como recomendação clínica no documento, o que contrasta com a diretriz britânica NICE NG248 (2025), que manda oferecer TCC em grupo, de oito a dez sessões, e apenas considerar a Entrevista Motivacional.
Perguntas frequentes
Afinal, quantos brasileiros apostam?
Depende de qual pergunta foi feita. O Datafolha (abril de 2026) encontrou 10% de pessoas de 16 anos ou mais usando plataformas de apostas ou cassino online no momento da entrevista. O Banco Central (Estudo Especial 119/2024) identificou cerca de 24 milhões de pessoas físicas com ao menos uma transferência Pix para empresa de aposta em agosto de 2024. O III LENAD (campo de 2023, reproduzido no Guia do Ministério da Saúde de 2026) registrou 25,9% de brasileiros que jogaram ou apostaram alguma vez na vida, contando loteria e jogo do bicho. Os três medem populações, janelas de tempo e definições de aposta diferentes, e por isso convivem sem se contradizer.
Os 10.553 atendimentos do SUS medem o tamanho do problema?
Eles medem o que a rede registrou. São atendimentos codificados como F63.0 (Jogo Patológico) ou Z72.6 (Mania de Jogo e Aposta) entre janeiro de 2018 e maio de 2025, com alta de 104% no período, segundo o Guia do Ministério da Saúde (2026). O próprio Guia registra subnotificação do tema na rede, o que faz do crescimento uma medida de codificação e de acesso, além de eventual mudança na frequência do transtorno.
Qual código diagnóstico usar no Brasil em 2026?
No SUS a classificação vigente é a CID-10, com F63.0 e Z72.6. O Guia do Ministério da Saúde (2026, seção 7.8) registra que a CID-11, que traz o código 6C50.0 para Transtorno de Jogo, está em fase de implementação pelo Ministério da Saúde. Quem se formou estudando 6C50.0 vai preencher F63.0 no sistema da rede pública.
Que instrumentos o Ministério da Saúde indica para avaliação?
O Guia (2026, seção 7.4 e anexos) indica o Autoteste de Jogo (Velasquez, 2021, com validação no Instituto de Psiquiatria da USP), o PGSI, Problem Gambling Severity Index (Ferris e Wynne, 2001), e a Esdeje, Escala de Dependência de Jogos Eletrônicos (Lemos, 2015). O texto do Guia é explícito ao dizer que esses instrumentos são complementares à avaliação e não direcionadores do cuidado. A diretriz britânica NICE NG248 (2025, recomendação 1.1.20) indica PGSI e South Oaks Gambling Screen.
Onde um psicólogo estuda esse campo com profundidade?
A formação em transtorno do jogo e dependências no Brasil é competência construída dentro da Psicologia Clínica e da Psicologia em Saúde, porque a Resolução CFP nº 23/2022 reconhece 13 especialidades e nenhuma delas é adicções ou transtorno do jogo. O caminho prático combina leitura do Guia do Ministério da Saúde de 2026, treino em instrumentos de rastreio e supervisão de casos. Programas de pós-graduação em Psicologia, entre eles os MBAs do IPOG na área de saúde mental, cobrem parte dessa base conceitual, e a grade vigente de cada turma consta do portal oficial da instituição.
Síntese
O número só informa quando vem com o conjunto que ele contou
- 10%, 24 milhões de pessoas e 25,9% descrevem populações, janelas e definições de aposta diferentes, e nenhuma comparação direta entre eles se sustenta.
- Os 10.553 atendimentos do SUS entre 2018 e maio de 2025 contam registros de CID, com alta de 104% num sistema que o próprio Ministério da Saúde descreve como subnotificado.
- O risco se distribui por produto: 26,4% em adolescentes com cassino e slot online contra 8,9% em adultos com aposta esportiva, segundo a Comissão do Lancet Public Health (2024).
- Mais de 1 milhão de autoexclusões convivem com ausência de ensaio que sustente bloqueio como tratamento, segundo a revisão de evidência H do NICE NG248 (2025).