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Medium: o abandono da psicoterapia é um evento da primeira sessão

Ensaio de 1.400 palavras pronto para colar, ancorado no estudo prognóstico de 40.732 pacientes publicado na JAMA Network Open em 03/08/2026.

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Canal primário: Medium. Secundário: LinkedIn

O argumento depende de separar 28,4% do total de 60,9% de um subconjunto, distinção que se perde no post curto. Em LinkedIn, sobra a conta de gestão e o motivo para não triar por risco.

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Copie o bloco abaixo. Os DOIs foram conferidos no registro editorial em 07/09/2026.

O abandono da psicoterapia é um evento da primeira sessão. Essa frase contraria a experiência que quase todo psicólogo relata. A memória clínica registra o paciente que sumiu no quarto mês, quando a coisa estava ficando difícil. O registro eletrônico de 40.732 pessoas conta uma história diferente, e ela desloca o problema do meio do tratamento para a porta de entrada. Giber e colegas publicaram em 3 de agosto de 2026, na JAMA Network Open, um estudo prognóstico com dados de prontuário eletrônico coletados entre 2008 e 2022 em dois centros médicos acadêmicos, seis hospitais comunitários e as redes ambulatoriais associadas, em Massachusetts. A população foi de adultos de 18 a 80 anos com depressão que fizeram ao menos uma sessão de psicoterapia individual. O total analisado foi de 40.732 pessoas, com idade média de 44,2 anos e 69,3% de mulheres. A taxa de abandono, definida como três sessões ou menos, foi de 28,4%, o que corresponde a 11.571 pessoas dentro desse denominador. Entre quem abandonou, 60,9% saiu depois da primeira sessão. Vale reler o segundo número com calma, porque ele é o achado que muda conduta. Não estamos falando de 60,9% do total de pacientes. Estamos falando de 60,9% dos 11.571 que abandonaram, ou seja, aproximadamente 7 mil pessoas que tiveram exatamente um encontro com um psicólogo e nunca voltaram. Se o abandono fosse um fenômeno de desgaste, ele se distribuiria ao longo do processo. Ele se concentra no primeiro contato. A segunda parte do estudo é igualmente útil pelo que ela falha em fazer. Os autores treinaram regressão logística e florestas aleatórias para prever quem abandona, usando idade, raça e etnia autodeclaradas, condições médicas e histórico de contatos com o sistema de saúde. A área sob a curva ficou em 0,64 (IC95% 0,63 a 0,65) para a regressão logística e 0,66 (IC95% 0,65 a 0,67) para as florestas aleatórias. Em linguagem de triagem, isso é discriminação fraca. Um modelo com AUC de 0,66 acerta pouco acima do acaso na ordenação de risco, e não sustenta política de alocação de vaga. Esse resultado se repete em outro contexto. Bremer-Hoeve e colegas (2026) publicaram em Clinical Psychology and Psychotherapy um trabalho de aprendizado de máquina para prever abandono em depressão maior, com dados de um ensaio randomizado de 290 pacientes ambulatoriais e validação externa em 96 casos independentes. O melhor modelo alcançou F1 de 0,303, e o desempenho caiu na validação externa. Os cinco preditores que emergiram são banais e disponíveis em qualquer triagem: idade mais baixa, desemprego, mais comorbidades do Eixo I, ausência de parceiro e depressão de gravidade moderada. Junte as duas coisas e o quadro fica claro. Sabemos onde o abandono acontece, e não sabemos prever quem vai abandonar com precisão suficiente para separar pacientes. A conclusão prática decorre disso: se o risco não é previsível no indivíduo, ele precisa ser tratado no processo, e o processo em questão é a primeira sessão de todo mundo. O que a literatura de aliança acrescenta a esse ponto. Xu e colegas (2025), numa meta-análise multinível de 130 estudos com 12.449 clientes e 2.840 terapeutas, encontraram a construção de rapport pelo terapeuta como o preditor mais forte de aliança, r = 0,39 (IC95% 0,31 a 0,47), e a prontidão do cliente logo atrás, r = 0,34 (IC95% 0,25 a 0,42). Forrest e colegas (2026), numa meta-análise de 21 estudos em contexto forense publicada no International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, encontraram associação entre aliança de trabalho e abandono de tratamento com d = 0,390. Nenhum desses números prova que melhorar a primeira sessão reduz abandono. São associações, e o contexto forense tem particularidades que não se transferem para o consultório particular brasileiro. O que eles fazem é apontar uma direção plausível para intervir onde o evento se concentra. Critério de decisão para quem gerencia uma agenda ou um serviço. Se você atende em serviço com fila, meça a sua própria taxa de retorno após a primeira sessão antes de mudar qualquer coisa. Sem essa linha de base, você não vai saber se a mudança funcionou. O denominador é o número de primeiras sessões do período, e o numerador é quantas dessas pessoas voltaram uma segunda vez. Se a sua taxa de não retorno estiver perto ou acima do que o estudo de Massachusetts descreve, o alvo é o desenho do primeiro encontro, não a seleção de paciente. Isso significa combinar em voz alta o que vai acontecer, quanto tempo dura, com que frequência, e o que acontece se a pessoa faltar. Significa também marcar o segundo encontro antes de a pessoa sair da sala. Se você está escolhendo formação, o critério muda de foco. Curso que ensina protocolo de tratamento assume um paciente que ficou. Formação com supervisão de caso real e devolutiva sobre gravação trabalha o que acontece antes disso. O que não se pode afirmar com esses dados. Que 28,4% é a taxa brasileira. O estudo é de Massachusetts, com prontuário eletrônico de rede acadêmica, cobertura de plano de saúde norte-americana e uma definição de abandono própria, três sessões ou menos. Também não se pode dizer que quem sai depois de uma sessão abandonou tratamento no sentido clínico: parte dessas pessoas encontrou o que precisava, parte não conseguiu voltar por motivo prático, e o prontuário não distingue as duas. O que muda na sua segunda-feira. Abra a agenda dos últimos três meses e conte quantas primeiras sessões viraram segunda sessão. Se você nunca fez essa conta, ela vai levar vinte minutos e vai mudar a pergunta que você faz sobre a sua própria clínica. Voltando ao começo. O paciente que some no quarto mês é o que fica na memória, e o que sai depois do primeiro encontro é o que sai da estatística sem deixar rastro. O primeiro dá história para contar na supervisão. O segundo é onde está o problema. Fontes: Giber B, Sharma A, Broadie D, McCoy TH, Gunning FM, Perlis RH, Doshi-Velez F, Solomonov N. JAMA Network Open, 2026;9, DOI 10.1001/jamanetworkopen.2026.31565. Bremer-Hoeve S, van Bronswijk SC, Beekman ATF, Miggiels M, Bruijniks SJE, van Dijk MK. Clinical Psychology and Psychotherapy, 2026;33, DOI 10.1002/cpp.70320. Xu H et al. Psychotherapy, 2025;62, DOI 10.1037/pst0000603. Forrest G, Olver ME, Stockdale KC. International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, 2026, DOI 10.1177/0306624x261448931. Este texto é editorial e educacional, não substitui avaliação clínica nem supervisão profissional. Em sofrimento agudo ou risco de vida, ligue 188 (CVV, 24 horas) ou procure pronto-socorro psiquiátrico.

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Alexandre Caramaschi

Fundador da Brasil GEO e editor do portal posgraduacaopsicologia.com, publicação editorial independente sobre formação e evidência em Psicologia.

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