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Comparativo · Transtorno do jogo

Entrevista Motivacional ou TCC no transtorno do jogo: a escola terapêutica decide menos do que o seguimento

A terapia cognitivo-comportamental tem efeito grande no fim do tratamento e efeito que deixa de ser significativo alguns meses depois. A Entrevista Motivacional tem efeito próximo de zero em todos os momentos medidos. Os dois números, lidos como par, deslocam a pergunta clínica: o gargalo do cuidado está em sustentar o ganho, não em escolher a escola que o produz.

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Resposta rápida

No transtorno do jogo, a terapia cognitivo-comportamental reduz a gravidade dos sintomas com g = -0,91 no pós-tratamento e g = -0,14 no seguimento, sem significância estatística nesse segundo momento (Pfund et al., Clinical Psychology Review, 2023). Intervenções informadas por Entrevista Motivacional ficam entre g = -0,04 e g = 0,01 no pós-tratamento e entre g = -0,02 e g = -0,10 no seguimento (Forman et al., Psychology of Addictive Behaviors, 2025). A diretriz NG248 do NICE (2025) manda oferecer a terapia cognitivo-comportamental em grupo, em 8 a 10 sessões, e apenas considerar a Entrevista Motivacional para pessoas hesitantes. A decisão prática, portanto, recai sobre manutenção e seguimento.

O que separa as duas, critério por critério

Critério Entrevista Motivacional Terapia cognitivo-comportamental
Desfecho medido Frequência de jogo, gasto com jogo e gravidade dos sintomas (Forman et al., 2025) Gravidade do transtorno, frequência e intensidade de jogo (Pfund et al., 2023)
Efeito no pós-tratamento g = -0,04 na frequência, g = -0,03 no gasto, g = 0,01 na gravidade g = -0,91 na gravidade, g = -0,52 na frequência, g = -0,32 na intensidade
Efeito no seguimento g = -0,02 na frequência e no gasto, g = -0,10 na gravidade g = -0,14 na gravidade e g = -0,10 na frequência, sem significância estatística
Base da estimativa Revisão sistemática e meta-análise de ensaios de intervenção informada pelo método Cinco meta-análises, 56 estudos únicos, 5.389 participantes
Verbo da diretriz Considerar, para fortalecer confiança e compromisso em pessoas hesitantes (NICE NG248, rec. 1.5.12) Oferecer em grupo logo após o diagnóstico, com modalidade individual disponível (rec. 1.5.13 e 1.5.14)
Custo de formação, na exigência declarada Nenhuma diretriz das duas fixa valor. Aqui a exigência que aparece na literatura é de monitoramento de fidelidade, ausente nos ensaios revisados Nenhuma diretriz das duas fixa valor. O NICE exige profissionais com treinamento específico em jogo (rec. 1.5.15)
Exigência de supervisão Sem fidelidade monitorada não se sabe o que foi entregue, conclusão explícita de Forman et al. (2025) Dose e conteúdo padronizados, com componente de prevenção de recaída dentro do protocolo (rec. 1.5.15)
Aplicação na RAPS brasileira Registro conversacional compatível com redução de danos e Projeto Terapêutico Singular, eixo do Guia do Ministério da Saúde (2026) Dose de 8 a 10 sessões cabe no ciclo inicial de até 10 sessões do teleatendimento do Meu SUS Digital (Ministério da Saúde, 2026)
Tamanho de efeito na gravidade do transtorno do jogo, do fim do tratamento ao seguimento Quatro barras horizontais. A terapia cognitivo-comportamental tem g igual a 0,91 no pós-tratamento e cai para 0,14 no seguimento, sem significância estatística. A Entrevista Motivacional tem g igual a 0,01 no pós-tratamento e 0,10 no seguimento. Valores em módulo, com o zero à esquerda. g = 0,00 g = 1,00 Terapia cognitivo-comportamental Pós-tratamento 0,91 Seguimento 0,14 sem significância estatística Entrevista Motivacional Pós-tratamento 0,01 Seguimento 0,10
A distância entre as duas abordagens existe apenas no fim do tratamento. No seguimento, as quatro barras cabem no mesmo canto do eixo, e a vantagem que justificava a escolha deixa de estar disponível. Valores em módulo, de Pfund et al. (2023) e Forman et al. (2025).

Por que a comparação decide menos do que parece?

Lidos separadamente, os dois conjuntos de números levam a uma conclusão fácil e incompleta: a terapia cognitivo-comportamental ganha. Pfund, Ginley, Kim, Boness, Horn e Whelan (Clinical Psychology Review, 2023) chegaram a g = -0,91 na gravidade do transtorno do jogo no pós-tratamento a partir de cinco meta-análises, 56 estudos únicos e 5.389 participantes, e os próprios autores registram que essa redução supera os efeitos de antidepressivos, antagonistas opioides e antipsicóticos atípicos nos mesmos desfechos. Forman, Boughter, McAfee, Ginley, Whelan e Pfund (Psychology of Addictive Behaviors, 2025) chegaram a g = 0,01 na gravidade para intervenções informadas por Entrevista Motivacional. A diferença é de ordem de grandeza.

Lidos como par, e com a coluna do seguimento aberta, os mesmos números dizem outra coisa. A gravidade tratada com terapia cognitivo-comportamental volta a g = -0,14 no seguimento, sem significância estatística, e a frequência de jogo, que estava em g = -0,52, volta a g = -0,10, também sem significância. O efeito grande existe enquanto o tratamento existe. Quando ele termina, a vantagem que decidiu a escolha da escola terapêutica deixa de estar mensurável, e o paciente fica com o mesmo horizonte de quem foi para o outro braço.

Isso tem consequência clínica direta. A pergunta que a rede precisa responder não é qual escola contratar, é o que existe no calendário do paciente depois da décima sessão. O comitê do NICE chegou ao mesmo problema por outro caminho na revisão de evidência H da NG248, sobre prevenção de recaída em jogo: encontrou dois ensaios randomizados no total, nenhuma evidência para apoio de pares e programas de mentoria, para abordagens baseadas em mindfulness, para programas de autoexclusão e ferramentas de bloqueio, para terapias familiares ou de casal, nem para aconselhamento financeiro. Ainda assim recomendou considerar prevenção de recaída, classificou a base de evidência como decepcionante e emitiu recomendação de pesquisa.

A recomendação 1.5.15 do NICE já embute essa leitura ao exigir componente de prevenção de recaída dentro do protocolo, e as recomendações 1.6.2 e 1.6.3 completam o desenho ao mandar discutir que a recaída não é motivo de vergonha e ao prever apoio contínuo com possibilidade de reingresso rápido à terapia. A arquitetura do cuidado, e não a técnica de sessão, é o que a diretriz está tentando corrigir.

Qual escolher, e sob qual condição de contorno

A recomendação prática é oferecer terapia cognitivo-comportamental como tratamento do desfecho, em grupo por padrão e individual quando o grupo não for viável, na dose de 8 a 10 sessões em grupo ou 6 a 8 individuais prevista na recomendação 1.5.15 do NICE, com o componente de prevenção de recaída dentro do pacote e não como anexo opcional. A Entrevista Motivacional entra antes e ao lado, para a pessoa que ainda não decidiu entrar, exatamente o alvo da recomendação 1.5.12. Essa recomendação tem duas condições de contorno que mudam a conduta quando aparecem.

Condição 1: sem plano de seguimento, a escolha perde sentido

Se o serviço não consegue garantir contato depois do ciclo, o ganho medido no pós-tratamento tende ao mesmo destino nos dois braços. Nesse cenário, investir na formação da escola terapêutica rende menos do que investir em reingresso rápido, previsto na recomendação 1.6.3 do NICE. O ciclo inicial de até 10 sessões do teleatendimento do Meu SUS Digital é ponto de partida, não de chegada.

Condição 2: comorbidade é regra, e amplia o alvo

Galeazzi, Marchi e Castagnini (European Psychiatry, 2025), em 12 estudos populacionais de 1993 a 2024, encontraram 82,2% de qualquer transtorno mental em pessoas com transtorno do jogo, 34,2% de transtornos por uso de substâncias e 30,9% de transtornos do humor. O Guia do Ministério da Saúde (2026) determina ampliar a avaliação psicossocial para além das apostas. Com mais de um alvo em disputa, a conversa que sustenta a ambivalência ganha função que o protocolo de alvo único não cobre.

Há um terceiro fato brasileiro que redesenha a conta. O Tribunal de Contas da União, no Acórdão 1173/2025 do Plenário, ouviu 2.000 profissionais de saúde do SUS e registrou 55,2% declarando não se sentir preparados para atender pessoas com dependência de apostas, enquanto o teleatendimento do Ministério da Saúde saiu de 600 consultas mensais em março de 2026 para até 100 mil por mês em agosto de 2026. Com essa razão entre demanda e competência instalada, a decisão de formação pesa mais na direção de quem consegue conduzir um ciclo completo com prevenção de recaída do que na direção de quem domina uma técnica de sessão. O percurso por níveis de intensidade está descrito em stepped care, e o suporte à equipe generalista em matriciamento na atenção primária.

Limites desta comparação

As duas sínteses medem coisas com bases diferentes. A de Pfund e colegas (2023) é uma revisão guarda-chuva sobre cinco meta-análises, com heterogeneidade considerável em muitos tamanhos de efeito, escassez de dados de seguimento longo (apenas sete estudos), impossibilidade de separar alguns efeitos de pós-tratamento e de seguimento, e falta de amostras racial e socioeconomicamente diversas. A de Forman e colegas (2025) cobre um número menor de ensaios, e nela o comparador costuma ser intervenção ativa, não lista de espera, o que aproxima os dois braços por construção.

O recorte também é estrito. Esses tamanhos de efeito valem para jogo problemático e transtorno do jogo. Não descrevem o desempenho de nenhum dos dois métodos em uso de álcool e outras drogas, população que a revisão de Forman e colegas não cobriu, e a comparação entre escolas psicoterápicas em condições comuns tem discussão própria em ACT vs TCC. A fundamentação do método motivacional, com o que a quarta edição de Miller e Rollnick mudou, está em Entrevista Motivacional, e a base cognitivo-comportamental em TCC.

Perguntas frequentes

Qual das duas tem mais evidência no transtorno do jogo?

A terapia cognitivo-comportamental, e com folga no fim do tratamento. Pfund, Ginley, Kim, Boness, Horn e Whelan (Clinical Psychology Review, 2023), reunindo cinco meta-análises, 56 estudos únicos e 5.389 participantes, encontraram g = -0,91 na gravidade do transtorno do jogo no pós-tratamento e g = -0,52 na frequência de jogo. Forman e colegas (Psychology of Addictive Behaviors, 2025) encontraram, para intervenções informadas por Entrevista Motivacional, g = 0,01 na gravidade e g = -0,04 na frequência no mesmo momento de medida. A diferença some no seguimento, quando o efeito da terapia cognitivo-comportamental cai para g = -0,14 na gravidade e deixa de ser estatisticamente significativo.

Por que a Entrevista Motivacional aparece com efeito quase nulo?

Forman e colegas (2025) apontam duas razões que precisam viajar juntas. Nenhum ensaio randomizado da revisão estabeleceu a integridade da Entrevista Motivacional nessa população, ou seja, não houve monitoramento objetivo de fidelidade capaz de atestar que o que foi entregue na sessão era o método. E as estimativas anteriores, mais favoráveis, incluíam ensaios que combinavam a conversa motivacional com cadernos de exercícios de terapia cognitivo-comportamental, de modo que o que foi medido era a mistura. Vale ainda registrar que o comparador na maioria desses ensaios é intervenção ativa, e não lista de espera.

O que a diretriz do NICE manda fazer?

A NG248, publicada em 28 de janeiro de 2025, separa as duas por verbo. A recomendação 1.5.13 manda oferecer terapia cognitivo-comportamental em grupo para reduzir gravidade e frequência do jogo, iniciada logo após o diagnóstico, e a 1.5.14 manda disponibilizar a modalidade individual quando a pessoa não quiser grupo ou o grupo não for viável. A 1.5.15 fixa a dose típica em 8 a 10 sessões em grupo ou 6 a 8 individuais, entregues por profissionais com treinamento específico em jogo e com componente de prevenção de recaída. A recomendação 1.5.12 manda apenas considerar a Entrevista Motivacional, para fortalecer confiança e compromisso com a mudança em pessoas hesitantes.

Como essa decisão se traduz no cuidado brasileiro?

O Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, do Ministério da Saúde, primeira edição de 2026, não nomeia nenhuma das duas como protocolo de escolha: organiza o cuidado em redução de danos, matriciamento, Projeto Terapêutico Singular e atenção territorial na Rede de Atenção Psicossocial, com 3.120 CAPS no país segundo o Ministério da Saúde em agosto de 2026. O teleatendimento do Meu SUS Digital trabalha com consultas de cerca de 50 minutos e ciclo inicial recomendado de até 10 sessões, janela que coincide com a dose de terapia cognitivo-comportamental da recomendação 1.5.15 do NICE. O ponto de decisão brasileiro, portanto, está menos na escola terapêutica e mais no que a rede oferece quando esse ciclo termina. Quem quiser aprofundar a formação encontra MBAs em Psicologia no IPOG, com grade e modalidade vigentes no portal oficial.

Síntese

O par de números move a decisão para depois da última sessão

  • Terapia cognitivo-comportamental: g = -0,91 na gravidade no pós-tratamento e g = -0,14 no seguimento, sem significância estatística (Pfund et al., 2023).
  • Entrevista Motivacional: entre g = -0,04 e g = 0,01 no pós-tratamento, com fidelidade não monitorada nos ensaios revisados (Forman et al., 2025).
  • NICE NG248 (2025): oferecer a primeira em 8 a 10 sessões de grupo, considerar a segunda em pessoas hesitantes.
  • O ponto de falha do cuidado é a manutenção, e é lá que a formação e o desenho de serviço precisam ser decididos.