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Comparativo · Recorte de dor crônica

ACT ou TCC para dor crônica: o que muda quando o desfecho é dor

Este comparativo trata do recorte de dor crônica. A comparação geral entre as duas abordagens, com mecanismo, base teórica e indicação por transtorno, está em ACT vs TCC.

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Resposta rápida

Em dor crônica, a escolha entre as duas abordagens decide menos do que a escolha do desfecho. Contra controle ativo, a terapia cognitivo-comportamental produziu -0,09 em intensidade de dor em 9.401 participantes (Williams et al., 2020); a terapia de aceitação e compromisso, com comparadores mais frouxos e 1.298 participantes, produziu -0,37 em intensidade e -0,50 em interferência (Ye et al., 2024). As duas movem função, incapacidade e sofrimento com mais força do que movem intensidade. A NG193 do NICE (2021) coloca ambas sob o verbo considere; o PCDT brasileiro de 2024 traz seção própria para a terapia cognitivo-comportamental e nenhuma menção à de aceitação e compromisso.

O que muda quando o desfecho é dor, e não humor

Na comparação geral entre as duas abordagens, o desfecho costuma ser o próprio sintoma que define o quadro: escore de depressão, escore de ansiedade, remissão. Em dor crônica, o desfecho se parte em pelo menos três, e eles não andam juntos. A revisão Cochrane de Williams, Fisher, Hearn e Eccleston (2020) relata separadamente dor, incapacidade e sofrimento psíquico, e a distância entre eles é a informação clínica principal: contra cuidado usual, a terapia cognitivo-comportamental devolveu -0,22 em dor, -0,32 em incapacidade e -0,34 em sofrimento. Contra controle ativo, os mesmos números caem para -0,09, -0,12 e -0,09.

A segunda mudança é o comparador. Em depressão, comparar psicoterapia com lista de espera ou com cuidado usual já é considerado desenho fraco, e a literatura migrou para controles ativos. Em dor crônica, as duas melhores sínteses disponíveis estão em pontos diferentes dessa migração, e é isso que explica boa parte da diferença de magnitude entre elas. A Cochrane de 2020 reuniu 75 estudos e 9.401 participantes com comparação majoritária contra controle ativo e cuidado usual. A meta-análise de Ye e colaboradores (2024, PLOS One) reuniu 21 ensaios randomizados e 1.298 participantes com comparadores mais frouxos, além de heterogeneidade clínica alta e ausência de pré-registro do protocolo declarada pelos próprios autores.

A terceira mudança é regulatória, e ela é local. A NG193 do NICE, publicada em 7 de abril de 2021, trata as duas no mesmo nível de recomendação, a 1.2.3, com o verbo considere, e reserva o verbo ofereça para programa supervisionado de exercício em grupo. Já o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024, dedica a seção 6.1.7 à terapia cognitivo-comportamental e não cita a terapia de aceitação e compromisso em nenhuma de suas 298 páginas. Dentro do SUS ou de operadora que se orienta pelo protocolo nacional, essa assimetria documental pesa na viabilidade da indicação, independentemente do que a meta-análise mais recente aponte.

A escada dos comparadores

Efeito em dor por comparador usado no estudo Quatro barras horizontais com o valor absoluto da diferença média padronizada em dor ou interferência. Terapia cognitivo-comportamental contra controle ativo aparece em 0,09; contra cuidado usual, em 0,22. Terapia de aceitação e compromisso, com comparadores mais frouxos, aparece em 0,37 para intensidade e 0,50 para interferência. Diferença média padronizada em dor, valor absoluto TCC contra controle ativo 0,09 3.235 participantes TCC contra cuidado usual 0,22 29 estudos ACT, intensidade da dor 0,37 1.298 participantes ACT, interferência da dor 0,50 1.298 participantes Barras claras: Cochrane 2020. Barras escuras: PLOS One 2024.
A ordem das barras acompanha a exigência do comparador, e não a abordagem: o número maior pertence à síntese com base amostral menor e controles mais frouxos. Fontes: Williams et al. (2020) e Ye et al. (2024).

Comparação por critério

Oito critérios de decisão, com o número e a fonte colados a cada linha. Leia a linha de comparador antes da linha de tamanho de efeito.

CritérioTerapia de aceitação e compromissoTerapia cognitivo-comportamental
Alvo declarado da intervençãoA relação da pessoa com a dor e com as regras que ela criou sobre atividade. Ye e colaboradores (2024, PLOS One) medem esse alvo diretamente: aceitação da dor 0,68 (IC 95% 0,50 a 0,87) e inflexibilidade psicológica -0,65 (IC 95% -0,89 a -0,40).O conteúdo do pensamento sobre a dor e o comportamento associado. O PCDT brasileiro (Ministério da Saúde, 2024) coloca a terapia cognitivo-comportamental na seção 6.1.7, ao lado da educação em dor.
Desfecho primário medido nos ensaiosInterferência da dor e comprometimento funcional aparecem como desfechos de topo em Ye e colaboradores (2024), acima de intensidade.A revisão Cochrane de Williams, Fisher, Hearn e Eccleston (2020) organiza os desfechos em dor, incapacidade e sofrimento psíquico, com relato separado por comparador.
Tamanho de efeito documentadoPós-tratamento, em 21 ensaios e 1.298 participantes: interferência da dor -0,50 (IC 95% -0,66 a -0,34), comprometimento funcional -0,74 (IC 95% -1,13 a -0,35), intensidade -0,37 (IC 95% -0,57 a -0,17). Aos três meses, comprometimento funcional chega a -0,85 (IC 95% -1,32 a -0,39).Em 75 estudos e 9.401 participantes: contra controle ativo, dor -0,09 (IC 95% -0,17 a -0,01), incapacidade -0,12, sofrimento -0,09. Contra cuidado usual, dor -0,22, incapacidade -0,32 e sofrimento -0,34.
Comparador usado para chegar ao númeroComparadores mais frouxos e base amostral de 1.298 pessoas, com heterogeneidade clínica alta em vários desfechos (I2 de 80% em comprometimento funcional, 66% em depressão, 62% em intensidade).Majoritariamente controle ativo e cuidado usual, em base de 9.401 pessoas. A certeza GRADE é moderada na maior parte dos desfechos e baixa para incapacidade contra cuidado usual.
O que pede do pacienteDisposição para agir na direção de valores mantendo a dor presente, sem condicionar a retomada de atividade ao alívio prévio.Registro sistemático de pensamento, atividade e resposta, com tarefas entre sessões e disposição para testar previsões contra o que acontece.
Formato e duraçãoA NG193 do NICE, publicada em 7 de abril de 2021, cita a terapia de aceitação e compromisso na recomendação 1.2.3 sem fixar número de sessões. O PCDT brasileiro de 2024 não a menciona em nenhuma passagem.A mesma recomendação 1.2.3 do NICE também não fixa duração. O PCDT brasileiro delega frequência e duração ao profissional responsável e sugere interromper na ausência de adesão ou de melhora comportamental.
Exigência de treinamento e supervisãoA recomendação 1.2.3 do NICE condiciona a indicação à entrega por profissional de saúde com treinamento apropriado, sem distinguir entre as duas terapias.Mesma condição de treinamento apropriado na NG193. No Brasil, a existência de seção própria no PCDT dá lastro documental para pleitear a oferta dentro do serviço.
Onde se aplica melhorCasos em que a evitação de atividade e a luta contra a dor organizam a incapacidade, e casos em que a redução de intensidade já foi tentada e falhou.Casos com crença de dano explícita e testável, insônia associada e necessidade de documentar plano estruturado dentro de serviço público ou de operadora.

Três perguntas que resolvem a escolha na primeira avaliação

O paciente adia atividade até a dor ceder?

Se a resposta é sim, o alvo é a luta contra a sensação, e o repertório de aceitação e ação comprometida tem medida direta nesse terreno em Ye e colaboradores (2024), com aceitação da dor em 0,68.

Existe crença de dano específica e testável?

Crença nomeável, do tipo curvar a coluna provoca lesão nova, é falsificável dentro da sessão. O teste comportamental estruturado da terapia cognitivo-comportamental costuma resolver isso em menos encontros.

Onde o caso será autorizado e registrado?

Em serviço orientado pelo PCDT de 2024, só a terapia cognitivo-comportamental tem seção própria, a 6.1.7. A assimetria documental muda a viabilidade da indicação antes de qualquer argumento de eficácia.

Recomendação, com a condição de contorno explícita

A recomendação de entrada é usar o padrão de evitação como critério. Quando o paciente organiza a rotina em torno de não provocar dor e adia toda retomada de atividade até que ela ceda, o alvo de aceitação e ação comprometida tem tração maior, e é exatamente esse terreno que Ye e colaboradores (2024) medem, com aceitação da dor em 0,68 e inflexibilidade psicológica em -0,65. Quando existe uma crença de dano específica e testável, do tipo levantar peso provoca lesão nova, o teste comportamental estruturado da terapia cognitivo-comportamental costuma resolver em menos sessões, porque a crença é falsificável dentro da própria sessão.

A condição de contorno é onde o caso será tratado. Em serviço público brasileiro ou em operadora que se orienta pelo protocolo nacional, a terapia cognitivo-comportamental tem seção própria no PCDT de 2024 e a terapia de aceitação e compromisso não é citada, o que muda a conversa de autorização e de registro. A recomendação prática nesse contexto é começar pelo repertório com lastro documental e incorporar componentes de aceitação dentro do plano, sem trocar o rótulo da intervenção registrada.

Há uma segunda condição de contorno, e ela vale para as duas. Nenhuma das sínteses disponíveis sustenta indicação isolada. A NG193 do NICE reserva o verbo forte para programa supervisionado de exercício em grupo, e Kamper e colaboradores (2015, BMJ), em 41 ensaios randomizados com 6.858 participantes, mostram que a reabilitação biopsicossocial multidisciplinar entrega, contra cuidado usual e no longo prazo, cerca de 0,5 ponto em uma escala de dor de 0 a 10 e 1,5 ponto no índice Roland-Morris de 24 pontos. A psicoterapia entra dentro de um plano de atividade, e não no lugar dele.

Limites desta comparação

As duas sínteses citadas não foram desenhadas para se comparar entre si. Ye e colaboradores (2024) declaram heterogeneidade clínica alta em vários desfechos, com I2 de 80% em comprometimento funcional, 66% em depressão, 62% em intensidade e 51% em ansiedade, além de ausência de pré-registro do protocolo, busca restrita a um idioma, oito estudos com risco incerto de viés em ocultação de alocação e seis sem cegamento explícito do avaliador de desfecho. Na Cochrane de 2020, a certeza GRADE é moderada na maioria dos desfechos e baixa para incapacidade contra cuidado usual, a maior parte dos domínios de risco de viés ficou em risco alto ou incerto, e os efeitos se mantiveram no seguimento contra cuidado usual, mas não contra controle ativo.

Perguntas frequentes

ACT é melhor do que TCC para dor crônica?

A comparação direta entre as duas em dor crônica não está resolvida pelos números disponíveis, porque as duas melhores sínteses usam comparadores diferentes. A revisão Cochrane de Williams, Fisher, Hearn e Eccleston (2020) mediu terapia cognitivo-comportamental sobretudo contra controle ativo, em 9.401 participantes, e encontrou -0,09 em intensidade de dor. A meta-análise de Ye e colaboradores (2024, PLOS One) mediu terapia de aceitação e compromisso em 1.298 participantes, com comparadores mais frouxos, e encontrou entre -0,37 e -0,50. A diferença entre os dois resultados acompanha a régua, não a técnica. Quando o comparador é qualquer intervenção ativa que também ocupe o paciente, o efeito em intensidade encolhe nas duas.

Se o efeito em dor é pequeno, vale a pena indicar psicoterapia?

Vale, desde que o desfecho combinado seja o certo. Contra cuidado usual, a Cochrane de 2020 registra -0,32 em incapacidade e -0,34 em sofrimento psíquico, efeitos maiores do que os observados em intensidade de dor. Ye e colaboradores (2024) registram comprometimento funcional de -0,74 ao fim do tratamento e -0,85 aos três meses. O que a psicoterapia move de forma mais consistente é a vida em torno da dor: quanto a pessoa faz, quanto sofre, como dorme e como decide sobre atividade.

Por que a terapia de aceitação e compromisso não aparece no protocolo do SUS?

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024, tem 298 páginas, dedica a seção 6.1.7 à terapia cognitivo-comportamental e não traz nenhuma ocorrência da terapia de aceitação e compromisso. O documento também não usa a palavra psicoterapia e codifica a dor pela CID-10, com R52.1 e R52.2. Na prática de serviço público, isso significa que o pleito por terapia cognitivo-comportamental tem lastro documental direto no protocolo, e o pleito por terapia de aceitação e compromisso precisa se apoiar em diretriz internacional como a NG193 do NICE.

Como escolher entre as duas na primeira avaliação?

Use o padrão de evitação como critério de entrada. Quando o paciente organiza o dia em torno de não sentir dor e recusa atividade até que ela ceda, o alvo de aceitação e ação comprometida com valores tem mais tração, e é o terreno em que Ye e colaboradores (2024) medem efeito. Quando existe uma crença de dano específica e testável, do tipo curvar a coluna provoca lesão nova, o teste comportamental estruturado da terapia cognitivo-comportamental resolve mais rápido. Em casos com insônia associada, o repertório cognitivo-comportamental tem protocolo mais estabelecido para sono.

Qual formação prepara o psicólogo para conduzir esses casos?

A demanda pede leitura de evidência com atenção ao comparador, trabalho em equipe com prescritor e reabilitação física, e manejo de sofrimento persistente com repercussão ocupacional. O MBA em Psicologia Positiva, Saúde Mental e Gestão do Bem-Estar nas Organizações do IPOG trabalha esse conjunto em formato Ao Vivo síncrono, com corpo docente nominal. Consulte ipog.edu.br para a grade vigente.

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