Pular para o conteúdo principal
Portal independente. Não é o site oficial do IPOG. Matrículas e ofertas oficiais em ipog.edu.br
pP
Tema · Avaliação · Neuropsicologia · 2026

Como avaliar TDAH em adulto no Brasil?

Protocolo principal em quatro pilares: anamnese estruturada, DIVA-5, bateria neuropsicológica e cruzamento com instrumentos SATEPSI vigentes.

TL;DR — resposta direta

  • Prevalência principal em adultos: 2,5% mundial (Faraone et al., 2021, Neuroscience and Biobehavioral Reviews) e 3-4% em adultos brasileiros 35-74 anos (ELSA-Brasil).
  • Critério clínico: DSM-5-TR (cinco ou mais sintomas em adultos, início antes dos 12 anos, dois ou mais contextos) e CID-11 6A05.
  • Protocolo principal: ASRS-18 (triagem) + DIVA-5 (entrevista estruturada) + BRIEF-A + CAARS + bateria neuropsi. Todos testes precisam de parecer favorável vigente no SATEPSI (Resolução CFP 31/2022).

Tese: TDAH adulto não fecha em uma sessão e não fecha em um teste isolado

A maior fonte de laudo contestado em perícia previdenciária e trabalhista no Brasil é avaliação de TDAH adulto encerrada em uma única sessão, baseada apenas em ASRS-18 positivo. Isso não cumpre o critério técnico do DSM-5-TR nem da CID-11 6A05. Triagem positiva orienta investigação aprofundada — não fecha diagnóstico. O protocolo defensável combina anamnese ampla, entrevista estruturada (DIVA-5), bateria neuropsicológica e cruzamento com escalas de informante quando disponíveis.

Faraone et al. (2021), em consenso internacional publicado em Neuroscience and Biobehavioral Reviews, reforçam que a entrevista clínica é o eixo do diagnóstico, com instrumentos como apoio — não como substituto. Em adulto, isso é ainda mais crítico, porque o critério B do DSM-5-TR exige evidência de início antes dos 12 anos, e a maior fonte de erro diagnóstico é aceitar relato adulto "sempre fui assim" sem ancoragem objetiva em registros, boletins ou relato parental.

Tabela principal: protocolo de 5 instrumentos

Quadro técnico com finalidade, duração típica e referências principais.

Instrumento Finalidade Duração referências principais
ASRS-18 (OMS) Triagem inicial — Critério A do DSM 10-15 min Mattos et al. (adaptação brasileira)
DIVA-5 Entrevista diagnóstica estruturada 60-90 min Kooij et al. (2019) — DIVA Foundation
BRIEF-A Funções executivas no cotidiano (auto e informante) 20-30 min Hogrefe/Casa do Psicólogo — SATEPSI
CAARS Sintomas atuais por dimensão 20-30 min Conners — versão brasileira
Bateria neuropsi (TMT, Stroop, Wisconsin, WAIS-IV) Perfil cognitivo complementar 3-4 horas Manuais técnicos — testes SATEPSI vigentes

Quais 6 etapas o protocolo segue?

  1. Anamnese ampla com janela retrospectiva até a infância. Cobrir trajetória escolar, relatos parentais quando disponíveis, boletins e observações de professores. Faraone et al. (2021) reforçam que a anamnese é o eixo. Duração típica: 90 a 120 minutos no primeiro encontro.
  2. Triagem com ASRS-18 (OMS). Parte A com 4 ou mais marcações em região cinza é ponto de corte sensível. Triagem positiva orienta investigação aprofundada; triagem negativa não exclui em casos de apresentação predominantemente desatenta.
  3. Entrevista DIVA-5 estruturada. Cobre todos os critérios DSM-5-TR por sintoma, com exemplos concretos em duas dimensões (atual e infância). Confiabilidade interavaliadores documentada com kappa > 0,80 (Kooij et al., 2019). Produz documentação técnica robusta para laudo defensável.
  4. Avaliação neuropsicológica de funções executivas. Bateria com TMT-A/B, Stroop, Wisconsin, dígitos diretos e inversos da WAIS-IV, BRIEF-A (autorrelato e informante). Cortese et al. (2021) apontam que perfil cognitivo varia: nem todo TDAH tem déficit objetivo. Não esperar que neuropsi sozinha confirme ou exclua.
  5. Diagnóstico diferencial obrigatório. Ansiedade, depressão, transtornos bipolares, transtornos do sono e uso de substâncias frequentemente produzem sintomas sobrepostos. Avaliar comorbidade e diagnóstico diferencial é parte do protocolo, não opcional.
  6. Devolutiva técnica documentada. Laudo com critérios DSM-5-TR/CID-11 explícitos, evidência de cada critério, indicação de tratamento (psicoterapia + farmacoterapia quando aplicável) e ciclo de revisão sugerido.

Quais ferramentas obrigatórias do SATEPSI sob Resolução CFP 31/2022?

A Resolução CFP nº 31/2022 atualizou o sistema de avaliação de testes psicológicos no Brasil. Determina que apenas instrumentos com parecer favorável vigente podem ser usados profissionalmente. Antes de emitir laudo, o psicólogo deve verificar no SATEPSI (satepsi.cfp.org.br) o status atual de cada instrumento. O parecer pode estar "favorável", "desfavorável" ou "expirado" — usar instrumento com parecer expirado expõe o profissional a sanção ético-disciplinar.

Para TDAH adulto, os instrumentos com histórico de parecer favorável incluem: BRIEF-A, Conners Adult ADHD Rating Scales (CAARS), Escala Wechsler de Inteligência para Adultos (WAIS-IV brasileira), Trail Making Test (TMT versões validadas) e Teste de Stroop em versão validada. Verificar status atualizado teste a teste antes de cada avaliação.

Mini-caso · composto ilustrativo

Quando o protocolo robusto sobreviveu à perícia previdenciária

Paciente adulta, 34 anos, advogada, com queixa de dificuldade sustentada de atenção, procrastinação crônica e prejuízo profissional documentado. Procurou neuropsicóloga após autodiagnóstico via redes sociais. O profissional aplicou protocolo completo: anamnese de 2 horas com permissão para acesso a boletins escolares, ASRS-18 (positivo na Parte A com 5 marcações), DIVA-5 estruturada de 90 minutos (critérios DSM-5-TR confirmados, com início documentado aos 9 anos via relato materno e dois boletins), BRIEF-A (perfil clinicamente significativo em organização e iniciar tarefas), bateria neuropsi com prejuízo em atenção sustentada. Diagnóstico fechado: TDAH apresentação combinada, comorbidade com transtorno de ansiedade generalizada. Laudo emitido sob Resolução CFP 31/2022 com referência explícita a todos os instrumentos SATEPSI. Quando, três meses depois, foi questionado em perícia previdenciária, o laudo sobreviveu sem contestação técnica.

Perguntas frequentes

Qual a prevalência de TDAH em adulto no Brasil?

A meta-análise internacional de Faraone et al. (2021, Neuroscience and Biobehavioral Reviews, World Federation of ADHD International Consensus Statement) consolida prevalência mundial de TDAH em adultos em aproximadamente 2,5%. Estudos brasileiros como o ELSA-Brasil identificam prevalência de sintomas compatíveis com TDAH em adultos de 35-74 anos entre 3% e 4%, dependendo do ponto de corte do instrumento. Faixa principal usada em guias clínicos brasileiros: 2,5% a 4%. A Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) referencia a adaptação transcultural brasileira da escala ASRS-18 por Mattos et al. como instrumento de rastreio.

Quais critérios diagnósticos valem em 2026: DSM-5-TR ou CID-11?

Ambos. O DSM-5-TR (APA, 2022) exige cinco ou mais sintomas de desatenção ou cinco ou mais de hiperatividade/impulsividade em adultos a partir de 17 anos, presentes por seis meses, com início antes dos 12 anos, em dois ou mais contextos e com prejuízo funcional clinicamente significativo. A CID-11 (OMS) classifica como 6A05 Attention Deficit Hyperactivity Disorder, com padrão persistente presente na maioria dos dias por vários meses, em grau claramente acima do esperado para a idade. Convergem na essência; o DSM-5-TR é mais usado em laudos clínicos no Brasil.

Quais escalas validadas no Brasil eu uso?

Cinco escalas formam o protocolo principal: (1) ASRS-18 da OMS, adaptação brasileira por Mattos et al. (Revista Brasileira de Psiquiatria) — triagem inicial; (2) DIVA-5 de Kooij et al. (2019) — entrevista diagnóstica semiestruturada com alta confiabilidade interavaliadores (kappa > 0,80); (3) BRIEF-A — Behavior Rating Inventory of Executive Function adulto, listado no SATEPSI/CFP; (4) CAARS — Conners Adult ADHD Rating Scales, com versão brasileira; (5) WAIS-IV para componentes cognitivos quando indicado. Critério: instrumento com parecer favorável no SATEPSI ou validação brasileira publicada.

Qual a Resolução CFP que regula testes psicológicos no Brasil?

A Resolução CFP nº 31/2022 atualizou o sistema de avaliação de testes psicológicos (SATEPSI) e regulamenta o uso de instrumentos em avaliação psicológica no Brasil. Determina que apenas testes com parecer favorável vigente podem ser usados profissionalmente. A consulta é pública em satepsi.cfp.org.br, e o registro do parecer é verificável teste a teste. Antes de emitir laudo, o psicólogo deve confirmar que todos os instrumentos têm parecer ativo na data da avaliação.

Quanto tempo de avaliação neuropsicológica é razoável para fechar diagnóstico de TDAH adulto?

Protocolo defensável leva de 6 a 10 horas de avaliação distribuídas em quatro a seis encontros: anamnese ampla com janela retrospectiva à infância (90-120 min), DIVA-5 estruturada (60-90 min), bateria neuropsicológica de funções executivas (3-4 horas), escalas de informante quando disponíveis e devolutiva técnica. Avaliação de uma sessão única não cumpre o padrão técnico. O custo médio no Brasil em 2025 varia entre R$ 1.500 e R$ 4.500 conforme cidade, profissional e bateria aplicada.

Síntese executiva

Protocolo defensável é multi-instrumento, multi-sessão e SATEPSI-conforme.

TDAH adulto não fecha em ASRS-18 isolado. Fecha em DSM-5-TR + DIVA-5 + bateria neuropsicológica + instrumentos com parecer SATEPSI vigente sob Resolução CFP 31/2022. O MBA em Reabilitação Neuropsicológica do IPOG é trilha aplicada para profissionais que estruturam avaliação clínica defensável em Psicologia.